Não-É olhou outra vez para as nuvens no horizonte e lembrou que devia construir a arca antes que fosse tarde. Ninguém se interessou por sua decisão, mesmo porque, só ele acreditava nas proximidades do dilúvio; Deus em impessoa tivera que intervir para remover sua relutância diante das berrantes evidências. E depois de conhecido e conhecendo, e sabendo que a data estava definida, e as águas não se atrasariam, e poucos sobrariam para contar a história e, mais relevante, repovoar o mundo, Não-É tergiversou: dedicou-se a outras prioridades, ocupou-se das que eram só suas, adiou a providência de recursos, devaneou com a mudança reincidente do conceito da nave, tirou prolongadas férias, usou do precioso finito tempo – mesmo para ele, não é? – para recuperar-se de um estrepe que enfiou no pé. Mas um dia deu início a construção da arca salvadora, adotando como lema na partida o bordão: “antes tarde do que em tempo”, que depois seria distorcido num célebre ditado popular. Desenhou apressados esboços à carvão e neles incorporou um pouco de cada ideia acumulada em sua vida sobre a matéria. Calculou dimensões aproximadas e transformou tudo em metros de vigas e tábuas e acrescentou umas a mais para que nada faltasse, e no desenho uma observação orientadora dos rumos a serem seguidos, depois distorcida em célebre ditado popular: “é no andar das abóboras que as carroças se desajeitam”. Não sabia ao certo quanto sal necessitaria para as compras, mas tinha confiança nas águas do mar. Não sabia ao certo onde estavam as árvores para tanta madeira, mas sabia que elas poderiam ser abatidas aos poucos e cerradas aos poucos e transportadas aos poucos e colocadas ao seu alcance para que fosse construindo a arca, aos poucos. Para isso teria apenas que ensinar fordismo para águias, castores e elefantes. Munido dos memoriais da indústria naval de duvidosas arcas de antanho, construiu um edital que atendesse aos princípios da publicidade, imparcialidade, impessoalidade, indiscricionariedade, moralidade, economicidade, eticidade, eficienticidade, para convocar os fornecedores em condições de igualdade, pois eles, certamente, eram todos iguais. Depois de alguns dias pendurado num pau o edital foi retirado porque um ancião acusou nele alguns deslizes gramaticais, e constitucionais. Nada que alguns meses de discussão não resolvessem, para, outra vez, se publicar o edital, com seus devidos remendos; a ele alheios somente os que não se interessavam, ou seja, todos, com exceção de Não-É e seus previsíveis marceneiros. No dia contratado, rogorosamente, apresentaram-se para o trabalho galinhas, cupins e camelos, que logo avisaram estarem ali mediante um mandato de segurança, uma vez que os dromedários, baseados no princípio da nacionalização dos componentes da obra, pleiteavam na justiça dos homens exclusividade no empreendimento. Não-É improvisou ineficazmente e solicitou aos oceanos mais algumas cargas de sal para cobrir os custos extras. Em um nada de tempo que alguns meses não resolvesse, as primeiras tábuas e a primeira viga chegaram ao canteiro de obras. Vieram com cocô de galinha e muitos furos a mais que os necessários. Mas não tiveram que esperar mais do que um tempo que alguns poucos meses não resolvesse, até que chegassem mais algumas vigas e, apoiando-se mutuamente, irrigadas com o suor do lombo de alguns funcionáriocravos, as madeiras pudessem ir saindo do chão. Quando a água caiu, Não-É tonitruou as últimas instruções. As tartarugas correram como guepardos, os gatos obedeceram como cãezinhos, formiguinhas carregaram elefantes, andorinhas abraçaram-se com pavões, peixes perceberam que era melhor ficar do lado de fora. Para a estupefação dos incautos, nos cinco meses que durou a chuva espetacular, a arca flutuou e se salvaram todos os que os que estavam marcados pera se salvar. Não-É viveu por mais 350 anos, tempo em que brandiu a favor de sua administração uma máxima que depois distorceu-se em célebre ditado popular: “No final tudo chega ao fim. Se ainda não é o fim é porque ainda não chegou.”

Autoria de Carlos Homero Giacomini

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

limpar formulárioPostar Comentário

4 Comentários