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Mas o que de fato estaria eu a fazer aqui? Entendem muitos que eu nada possa, a não ser cumprir o destino de um cuco lubrificado, um preciso relógio de itérbio, tiquetaqueando regularmente, resultado de reações físico-químicas retroalimentadas, arranjadas em múltiplos corpos e formas, em contínua evolução, sempre redutíveis a uma substância única, sob leis imutáveis, da explosão inicial à implosão final, gigantesco colapso universal. E no intervalo, toda a dança da natureza, todo gênio e todo empenho, toda a marcha civilizatória, com sua insensatez de altos custos,  palácios, templos, escravidões; e a faina dos insetos, a labuta das manufaturas e a produtividade dos robôs; a música, as artes, a literatura, a ciência e a filosofia; os sentimentos e as arrebatações de toda a espécie;  a interligação dos cérebros humanos numa net sem limites; o meio trilhão de trepadas humanas anuais só na terra; o poetizado amor – apenas oxitocina;  a energia vital – apenas adenosina-trifosfato queimando em caldeirinhas celulares; e mil outras  complexas insignificâncias previstas, reunidas num vasto mundo automático,  em marcha inexorável para o aniquilamento,  funeral de qualquer possibilidade, diante do qual a consciência é só doença, incurável, dolorosa, que não cede a nenhuma morfina. E a ignorância, opção que não resolve nada, mas que, quase todos, apostamos que doa menos?

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