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O meu amigo barqueiro com os pés na terra diz compreender as minhas preocupações. Mas, desconfio que, homo e mulheres sapiens, somos uma raça incompreensível, exceto para os simples; embora não deixemos de empregar  esforços para nos ver e, quem sabe, enxergar. Penso mesmo que existimos quase para buscar alguma compreensão sobre quem somos além dos nossos poucos e culpáveis prazeres. Não sei bem o que possa ser tal compreensão, às vezes chamada de minha consciência. De onde veio? Quais seriam os seus limites? Anda vagando por aí? Ou atada aos meus neurônios? Sou um elo de uma cadeia? De evolução? Sou uma porção de uma tal substância única? Meu amigo pescador não está nem aí para essas complicações. Mas eu, talvez, necessite disso para ir (para onde?). Entender  entendam os fortes e reluzentes, porque os simples sem brilho querem apenas viver. E eu, sou um sopro do Eu Sou sem limites? Mas que raio tal coisa é?  Partículas capazes de transmutarem-se em ondas e viajar para frente e para trás (nossa!)? Minha matéria evolui? E disputa a chance de sobreviver? Que meus alelos devem herdar? Para que não se rompa a cadeia da espécie? E a carga genética, as hélices de ácido desoxirribonucleico, o dna-mulher potencial eu, potencial você, potencial sei-lá-o-que, e também as moscas e os bonobos, em ínfimas sequências de nucleotídeos, os tais genes. Eo ácido ribonucleico, o rna-homem, que emparelha com o dna-mulher, sobre ele se deita e faz-lhe amor. Chupa-lhe o código, suave e prazerosamente chupa-lhe o código, e se transforma em engravidadas sequências de aminoácidos de cada uma das  proteínas que formam as moscas, os bonobos, você e eu, e sei-lá-mais-o-que. E as moscas copulam na posição cachorrinho que permite uma penetração mais profunda, prazerosamente mais profunda, e os bonobos fazem papai-mamãe alternando com cachorrinho, em rapidinhas seguidas de ternos abraços e delicadas catações que lhes preparam para mais uma…e mais uma…e mais uma. E você e eu? Do kama sutra ao maithuna, animo e anima em busca de chupadas ou perfeições? Você e eu, nosso genoma 97% igual ao das moscas, 99% igual ao dos bonobos, 99,99% o mesmo no amarelo-vermelho-preto-branco mesmo que a science um dia tenha negado? Evoluo numa direção superior à mera sucessão geracional? E de orgasmos, e dietas para não engordar demais? Eu evoluo, a leptospira evolui, evoluem os liquens e as andorinhas também. Os nossos corpos? Por campos mórficos? Virando estrelas? Orgulho, medo, compaixão, crueldade, razão, ódio? E amor também? Talvez possamos Mas eu querendo saber o que sinto. E querendo saber por que sinto. E definir porque sei o que penso saber sobre o saber sobre o que sinto. E necessitando saber por que sei o que penso saber sobre o saber a respeito do saber sobre o que sinto Facílimo continuar. Mas, ilusionista, para sobreviver, outra possibilidade, já que algo sei, é repetir o que tanto já foi dito: sei é de nada. Meu amigo pésnaterra comprou um “primeiros passos na filosofia” e descobriu que eu e o livro dizemos coisas parecidas. Segundo ele, coisas demais. Porquê? Bem, essa é outra pergunta. 

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