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Mas também a possibilidade de… Na noite passada, na casa de arandu porã karai, sonhei  que observava uma cena na qual um homem com um casaco cinza bem talhado, calça e sapatos pretos, alto e forte, de cabelos negros   ondulados, estava parado num quarto de costas para mim.  À sua esquerda, um pouco mais adiante, uma mulher vestida de branco, com asas nas costas (importante especificar,  porque não esqueça leitor, também existem asas nos pés), estava voltada lateralmente para o homem e olhava seu rosto. Logo lhe estendeu um bebê envolto  em cueiros como um charutinho, tal  qual egresso  de um  berçário do passado. O homem tomou nas mãos o pequeno embrulho e um tremor intenso de esforço e prazer agitou seu corpo inteiro enquanto tentava esmagá-lo. A mulher arrancou a trouxinha das mãos dele e se afastou correndo. Reapareceu numa outra sala daquele mesmo prédio. Depositou o bebê numa maca com segurança e recuou de costas vigilante. O bebê permaneceu em silêncio, com olhos muito abertos brilhantes. Aos poucos, agitando-se, foi afrouxando o embrulho, desenvolvendo-se dos cueiros. Quando libertou o primeiro braçinho aquietou-se reflexivo, mas  logo explodiu num poderoso choro que ameaçava fazer ruir aquele lugar: um grito visceral a anunciar seus poderes. E gritou e se debateu até livrar-se das amarras, e flutuou e se contorceu libertando-se de vez  da camisa de força. E já estava em pé no chão, e dava os primeiros passos, e caminhava cada vez mais decidido, e era todo irrefreável impulso para lançar-se à marcha, um só ímpeto na superação do medo quase intransponível de fazê-lo. Caminhou cambaleante  para os braços da mãe que se afastou impulsionada pelas asas brancas até desaparecer. Caiu e levantou. Com os braços estendidos, tateando amparo, seguiu caminhando. Caiu e levantou. E caminhou, mais e mais rapidamente, e agora percorria uma extensa relva verde em corrida desenfreada, e caia e levantava, e depois decolou e se projetou no espaço, como um foguete alçado da rampa dos trens, uma chispa, uma fagulha-mistério, em busca e ao encontro de... E o homem elegante, do casaco cinza bem talhado, calça e sapatos pretos, alto e forte, de abastados cabelos negros ondulados, ali de perto, observava tudo, com aparentes misteriosas intenções. Tinha nos lábios um sorriso cínico e fingia – ou era verdade? – ver no céu labirintos que só ele via. E o bebê, de muito longe, seguia no céu as asas brancas de sua mãe. Histórias que estamos aí para contar ou só um sonho que me tirou o sono?

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