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Penso em culturas e ritos, ciências e artes, emoções e sentimentos. Penso na tia maria que fazia sabão; em seu assovio frequente porque ela aceitava as bebedeiras do tio socio-econômico-familiar-não-útil, indigno do touro de wall street enquadrado no código internacional nas doenças da consciência. O sabão da tia mariaresistência de dar uma chance aos muitos filhosfoi o seu poema-espuma de dizer o indizível, a sua narrativa de vida, seu arranhão nos significados, siamês da consciência esta praga na superação das impossibilidades de cada dia. Estamos aqui para sempre aprender e experimentar? Para domar as dúvidas e apequená-las, confirmadas as experiências e suas possibilidades, entre as quais o cinismo da possibilidade nenhuma? E comer a maçã? E arcar com a liberdade das escolhas, e sentir a escuridão da alma, e proclamar a verdade, e prometer a ressurreição, ou a reencarnação, ou o nirvana, ou difundir a expectativa do nada, ou tantas outras? E se a pergunta fosse por que, alguém com desprezo poderia contrapor: por que não? E se a pergunta fosse para que, poderia falar de posses e dinheiro: numa casa de luxo pensando em castelos, num carrão pensando em iates, em primeira classe pensando num jatinho particular, em restaurantes três estrelas pensando em comida de mil dólares e vinhos de milhares, em garotas de programas pensando em bacanais, na vizinha, na secretáriana sobrinha.  E paciente do vaidosinho doutor k seguir portando aquele arretado embornal de pílulas e carregando o desejo inconsciente da imortalidade. Sejinha! E se lhe perguntassem por onde, poderia referir-se a quaisquer caminhos que parecessem lhe servir. Se lhe dissessem não, diria talvez. Se lhe dissessem sim, diria quem sabe. Se lhe dissessem não se sabe, diria não me importo. Perguntado para quem, responderia para mim. Se confirmassem o que teria afirmado ontem, diria não lembro. E se lhe lembrassem de uma posição sua qualquer, diria não confirmo. E a verdade? É relativa. E a virtude? Onde se encontra? E a liberdade? Eu compro. E a cultura? Não compra nada. E aí poderíamos ir  ficando  todos iguais…ou recusando-se a... Mas a tia Maria premida pela necessidade de sobreviver com seus filhos, não se preocupava em filosofar sobre a consciência etc; a que tinha lhe dava fazer sabão sem muito pensar e com bastante sentir, e sustentava todos, e cuidava do tio terno, um bom homem não útil. Se o mundo fosse tia maria…que tal?

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13 Comentários

  1. Depois de anos de envolvimento com o intelecto, os intelectuais e os papers intelectivos, chegamos à amarga percepção de que a vida é feita pela cotidianidade de pessoas anônimas que foram “colocadas entre parênteses” nos números, categorias e rótulos de nossos ambiciosos estudos.

  2. A narrativa me levou ao passado, bem passado, lá no distante de minha memória. Mainha, lavava roupa para fora, limpava a casa, e fazia comida sempre cantando aqueles bolerões que trago na consciência de que realmente eu vivi estes dias. algumas vezes até pensei quem seria que “vestida de branco, de véu e grinalda, lá vai esmeralda, casar na igreja, quem sabe que os anjos não cantem pra ela e lá na capela seu vigário não esteja…”. Ainda hoje, procuro, sem cessar, reconhecer essa mulher.