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Pois é, poucos dias distante e já estou sentindo saudades do chico. Da curiosidade persistente com que sempre me fita do fundo de seus buracos negros; do modo como vira a cabeça quando o miro pelas costas, dizendo: Senti o seu olhar em mim; da atitude de se recusar a se despedir quando  saio e de receber-me sempre sequioso quando chego, postado na porta muito antes de eu chegar; da ligeira ansiedade enquanto espera pela resposta afirmativa para tirar a sesta no tapete ao lado da minha cama; da companhia paciente e próxima a me seguir pela casa a qualquer canto aonde eu vá; da pronta aquiescência ao menor convite que lhe faça; da entrega completa ao mais fugaz afago que lhe dedique. O chico, muito evoluído, só pouco menos do que eu e você. Este ser de forma única sempre soube a forma que deveria ter: matéria, corpo, sistemas, vísceras, cérebro, tecidos, células, organelas, moléculas, átomos, quarks, bósons, fótons; planetas, galáxias, universo, multiverso; tempo, espaço, velocidade, gravidade, temperatura, eletromagnetismo; intelecto, memória, pensamento, consciência, sentimentos, emoções, mente, alma, espírito, fluxos, integração, interação. Você em chico! Quanto de tudo isso  nessa minha singela e fiel hierarquia aninhada? Outra noite, deitado na relva observando o céu, pensei nas razões das saudades que sinto daquilo que desconheço, nesse longo tempo sem saber de quase nada. Seres contadores de histórias! Que histórias contar sobre a hierarquia na qual nos aninharíamos todos? Talvez seja um defeito meu esta mania de sempre inventar um jeito grandioso de ver as coisas; ingenuidade sentir este maravilhamento invasivo mediante determinadas percepções; exagero imaginar que estas coisas sejam  a melhor experiência que tenho da felicidade.

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