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Na segunda metade do século XVIII  a coroa portuguesa quis tomar conta dos territórios do sul detendo a ameaça castelhana do rio da prata, e transformar os povoadores em súditos zeladores dos territórios e agentes de desenvolvimento econômico pagadores de tributos ao rei.  Aqui no estado, a ameaça espanhola era apenas um fantasma (pero que los hay, los hay). Mesmo assim, uma nova geração de expedições, como as famosas do tibagí, passaram a ser organizadas, não mais com o objetivo de apenas explorar os territórios, mas de efetivamente deles se apossar primeiro, garantindo sua propriedade conforme os princípios vigentes. Por isso o chefão destas operações, adauto botelho,  orientava seus comandados: “Em todo lugar que o capitão tiver alguma demora fará roças para bastante plantae a todos os campos que encontrar porá fogo, e sempre na entrada e saída das matas fará cortar árvores grandes, e em outras fará cruzes e descreverá alguns caracteres nos troncos das árvores e em pedras, que digam viva el-rei de Portugal…que em todo tempo se conheça chegou por aí a expedição: nas barras dos rios e lugares mais notáveis deixarão os ditos caracteres…” Na esteira de tais providências pessoas se fixaram nos lugares, mercados rudimentares se desenvolveram inclusive para fornecer às próprias expedições. E, pelos caminhos abertos para que avançassem, em especial o caminho do viamão, comunicavam-se,  trocavam e comerciavam, e iam criando sua identidade cultural; influenciadas inclusive pelos fantasmas castelhanos que implantaram a bombacha  primeiro nas terras da ave que voa veloz, numa história que soa inverossímil, principalmente para os irmãos do extremo sul.  Os mais influentes forneciam às suas expensas gente uniformizada e insumos para as operações da coroa e dela recebiam em troca patentes militares que aumentavam seu poder. Esta dinâmica deu pujança a vilas nascentes como a da terra de muito pinhão, tornando-a o principal polo econômico e irradiador da população do estado. Penso que somos também expedicionários. E plantamos roças nos lugares onde nos detivemos, espalhamos cruzes e entalhamos troncos de árvores com corações flechados e sinalizações das nossas rendições e crenças. Mas e eu, a qual coroa servi?  Fui agraciado com alguma patente militar por bons serviços prestados? Quais foram meus fantasiosos temores de castelhanos e índios? Aonde espalhei bombachas otomanas? Às vezes, dizem-me coisas boas a respeito do que dizem de mim. Nas minhas memórias,  feitas de lembranças e invenções, acolho-as com distinção. Summa cun laudem para as expedições que comandei! Mas não sei não. Minhas memórias tendem a me trair e costumam ser indulgentes.

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