A Italia é um dos países mais velhos do mundo. E não estou falando de sua longa história, mas do envelhecimento de sua população. É o  país mais envelhecido da Europa. Tem um velho e meio para cada jovem. Os homens vivem, em média, mais que oitenta anos e as mulheres mais que oitenta e cinco. Em geral, morrem por ano  mais de cem mil pessoas a mais do que nascem, e o número de nascimentos tende a diminuir ano a ano. São muitos os italianos que vão embora, só um pouco menos do  que os estrangeiros que vem.  A população mantém-se estável em sessenta milhões de pessoas. Não sei avaliar as consequências disso, mas algumas coisas relacionadas podem ser observadas quando se anda por aqui.

 

Estivemos em burgos medievais onde não se encontra viva alma como Precichie em Marche, ou onde parece que logo não se encontrará, como em  Labro no Lazio, que há poucos anos tinha oitocentos habitantes e agora só tem quatrocentos. Soube disso conversando com com dois Nonnos que naquela manhã ensolarada foram a metade das pessoas que encontramos no lugar. Quando disse a eles que onde moravam  era muito bonito (talvez o borgo mais bonito da Itália), ouvi como resposta que isso não valia nada porque as pessoas estavam acabando. No mesmo minuto passou na nossa frente uma mãe jovem (parecia ser asiática) com um bebê muito novo num carrinho (a outra metade do povo que vimos), e para animar os Nonnos eu disse que ali estava a continuidade. Um deles falou do bebê em detalhes, como quem fala de uma celebridade, mas concluiu dizendo que ele era só um, o único em muito tempo e quando crescesse iria embora, se a mãe não o levasse antes.

 

Caminhando aqui em Jesi logo a gente chega ao campo, como aliás em toda a Italia, onde terras aradas e quadras urbanas podem se suceder e avizinhar. Próximas das cidades parecem mais grandes hortas. Tem pequenos galpões onde se armazenam  ferramentas agrícolas, defensivos e adubos, porque as pessoas que cuidam da terra não moram ali. As pessoas, aliás, são sempre velhas (mulheres e homens), e parecem com prazo de validade vencido para aquele trabalho pesado. Mas estão lá: um casal de velhinhos subindo em escada para colher olivas, um velho arcado pilotando um pequeno trator, uma velha solitária limpando um enorme canteiro com uma enxada. A produção agroalimentar na Italia segue muito bem, com mecanização, escala e serviços terceirizados. Por certo não precisa desses Nonnos e Nonnas. Mas como revelam os pequenos galpões caindo aos pedaços e plantações que de um ano para o outro deixaram de ser colhidas, há uma Itália que caminha para o fim,  cujas dinâmicas econômicas como justificativa, não são suficientes para livrar esse estrangeiro, impactado por tais lindas hortas, de um gosto amargo na boca e de um nó que sobe e desce na goela.

 

Dos terremotos os jovens não gostam de falar. Bola pra frente, passou, deixa pra lá, estou indo embora. Mas os velhos não sabem mais retomar a estrada, e ficam, e até falam a respeito, desde que provocados. Em San Severino de Marche, num domingo pela manhã, cumprimentamos uma senhora bonita e elegante de uns oitenta anos que caminhava na rua deserta. Ela perguntou se éramos alemães, porque seu filho mora na Alemanha. Não, somos brasileiros. Pois isso está muito difícil porque o filho é o único familiar que me resta, principalmente agora que o terremoto interditou minha casa, que parece boa mas para onde  não estou autorizada a voltar. E não sei o que será, pois estou morando num pequeno cômodo com aluguel pago pela prefeitura enquanto espero pela casa que disseram que será construída; embora isso não me console porque na minha casa está tutta la mia vita e onde me encontro nem meu velho gato aparece. Puxa vida senhora, tomara que tudo dê certo, que as coisas se resolvam do melhor jeito possível. Arrivederci!

 

Em Norcia, no Abruzzo, uma das cidades que mais sofreu com o último terremoto, dezenas de negócios que literalmente ruiram estão enfileirados num centro comercial provisório feito de pequenas construções de madeira. Procurando um casaco entramos numa dessas lojas e fomos atendidos por uma senhora de mais de setenta anos. Examina casaco, isso não está bom, queria mais assim ou assado; e a senhora aflita, ansiosa como quem não quer deixar a venda escapar. Compramos e ela então falou: esta foi a única venda do meu dia. E enquanto lágrimas silenciosas rolavam, acrescentou: perdi tudo no terremoto, minha casa, meu negócio – trabalho de toda uma vida – e meu marido, que em poucos meses morreu de desgosto. Mas tenho que seguir, preciso recuperar, principalmente por minha filha e neto que também perderam a casa deles. E fomos embora, gosto amargo na boca e nó na goela outra vez.

 

Além de serem muitos os velhos italianos saem de casa. Os pavimentos são mais planos, os carros atropelam menos, ainda existe uma sensação de segurança no ar, eles tem menos doenças e mais dinheiro no bolso. Talvez sejam muitos os solitários mas chama mais a atenção a presença de casais de velhinhos:  mãos ou braços dados, andando no mesmo passo lento miudinho. É inverno e eles se vestem bem: casacos, calçados, estolas, bonés, que remetem a aconchegamento e conforto. Uns são mais arrojados, calças e sapatos claros, casacos coloridos, maquiagem acentuada,  cabelos matizados. Mas numa hipotética média predominariam os grisalhos ou branquinhos, as cores preta, cinza e marrom. Ao passar por eles (elas principalmente), quase sempre sinto cheiro de bebê saido de banho com sabonete de fragrância suave muito marcante. Uma delícia. Andam, nos melhores casos, apenas arrastando o passo, mas há os que recebem auxílio de bengalas, andadores, cadeiras de roda (quase sempre mecanizadas), que costumam usar com desenvoltura. Sincrônicos, se viram para olhar qualquer coisa ou mudar de rumo não em contínuo como os ponteiros de relógios de quartzo, mas aos pulinhos como acontece nos de corda;  sempre com muita elegância e,  aparentemente,  muita certeza de onde estariam indo. Nunca vi nenhum levar tombo, a não ser eu mesmo, que após tirar as botas numa inspeção de aeroporto não tive tempo de amarrá-las e fui vítima do cadarço da direita enroscando-se na bota esquerda, restando-me apenas a chance de executar uma rápida sequência de passinhos sempre mais curtos antes de me esborrachar no chão do dutti free. No Brasil diríamos que os velhos na Itália estão na deles. Inclusive, terão dificuldades para perceber e retribuir um cumprimento na rua pois tal prática não é habitual. Mas experimente puxar conversa com os que estão tomando seu café na mesa ao lado, principalmente para pedir algum tipo qualquer de auxílio, e eles se abrirão em gentilezas e prazer de conversar com alguém. Peidos nunca escutei, mas considerando serem mais inevitáveis na velhice, penso que sejam mais discretos pela dieta de grano duro, sem feijão e pouca carne.

 

E por falar em comida vi hoje no super mercado um autêntico exemplar de Nonna. Com uns noventa anos, saia armada abaixo dos joelhos, meia grossa chocolate, lenço na cabeça. Tinha um ar satisfeito e cansado e se apoiava num carrinho, dos grandes, repleto de compras. Um senhor de uns setenta, talvez filho, ia e voltava das prateleiras com produtos nas mãos, que apresentava, discutia, punha no carrinho ou devolvia. Me deu a impressão de que simplesmente cumpria ordens. Ah sim! É  importante dizer que estamos próximos do Natal e eu tenho certeza que na cabeça daquela Nonna estavam adiantadas as tratativas  para o grande pranzo de Natal, no dia 25, como é da tradição mais frequente por aqui. Talvez já não seja tão comum isso tudo, mas com aquela Nonna esse Natal será completamente a rigor.   Virão todos e penso que, nesse caso, não faltarão bisnetos. Se o tempo fosse adequado e ela tivesse um pátio, arrumaria uma grande mesa embaixo de uma árvore (que o Nonno ausente teria plantado há sessenta anos para almoços de família). Vai ter proseco, tinto, branco e acqua gazatta; alguma coisinha para mordiscar até que cheguem todos; antipasto variadíssimo cheio de segredos de família; o primeiro primo piato e o segundo primo piato, com fermento da Nonna e segredos de família; o primeiro secondo piato e o segundo secondo piato com mais segredos de família; os dolces, muitos; as frutas; a grappa, o amaro e o café. E tudo poderá retornar à mesa sempre que convocado por alguém.  E tudo sobre os rigores da batuta da Nonna.

 

No Brasil os velhos também não são poucos, mas, socialmente, são invisíveis.  Com 98 anos,  bom apetite, caminhando na avenida, comprando fio de lã para fazer blusões para órfãos, lendo jornal, fazendo palavras cruzadas, discutindo política e reclamando da comida só conheço uma.

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6 Comentários

  1. Adorei Homero! Com tuas palavras estive viajando com vc. Passeio pelos teus lugares, conheci as histórias destas figuras fantásticas que encontrou. Senti cheiros e sabores. Parabéns pelo texto!! Que você e Marisa continuem apreciando está viajem fantástica. Feliz 2018

  2. Conheci as nonnas pelo texto. Mas pra de 98 que conheço mais, faltou Um dos assuntos mais importantes e fundamental para o bom andamento da vida: la moda! 🙂