O Brasil de hoje é, mais do que nunca, um país de uns poucos canalhas.

Desde muito tempo os heróis do passado foram esquecidos e as batalhas que lutaram  como as que lutam hoje milhões de brasileiros comuns,   quase sempre pareceram combates de integrantes de uma cidadania esfarrapada cujo maior desafio foi e é manter a dignidade.

Estivemos aqui na Italia em Monte Castelo. Sem sentir nem esperar nada a respeito da história da Força Expedicionária Brasileira, sequer encontramos o monumento em memória aos nossos soldados. Mal informados, não sabíamos que um está em Pistoia (Monumento Votivo Militar Brasileiro), no lugar do cemitério dos brasileiros mais tarde repatriados, e o outro (Monumento ai Caduti Brasiliani), foi retirado da base da montanha de Monte Castelo e transferido para o Parco Giochi, na área urbana de Gaggio Montana, comune onde a montanha se localiza.

O episódio passou e o esquecemos, mas um dia, numa conversa em que tomei conhecimento de uma tal de incrível sagaz “matraca”,  um interesse sobre a campanha militar brasileira na segunda guerra surgiu com força. A tal matraca, foi uma invenção de um engenheiro do interior de São Paulo na Revolução Constitucionalista de 32. Sob o giro de uma manivela ela soava como uma metralhadora cenográfica para disfarçar a escassez de  munição: enquanto uns poucos tiros de fuzis eram disparados, a matraca era acionada, assustando e mantendo entrincheirados os inimigos federais no “fogo” de cobertura às investidas paulistas. Se as palavras gênio e ingenuidade juntas podem fazer boa figura num verso, no caso de uma guerra com matracas elas só poderiam ser  lema de um inacreditável contendor.

Não encontrei referências a matracas nas batalhas dos brasileiros na segunda guerra mundial,  mas encontrei coisas igualmente inacreditáveis, que me fizeram retomar com pungência a pergunta sobre que pais é o Brasil,  e desenvolver, com ternura, reverência nunca  cogitada em relação aos brasileiros que combateram na Italia nos anos de 1944 e 45,  muito bons representantes das dificuldades de ser povo simples do Brasil em quaisquer de suas circunstâncias.

Senão vejamos.

Getúlio Vargas, alinhado ao fascismo, só entrou na guerra ao seu final, cinicamente, sob pressão dos EUA e ao lado dos anti-nazifascistas. Com a meta de mobilizar 100.000 combatentes brasileiros  o governo desistiu aos 25.445, face aos problemas de dentição, subnutrição, doenças sexualmente transmissíveis e verminoses, que excluiram a maioria do contingente convocado. Os alistados deveriam integrar um exército cujo material bélico era obsoleto e cujo modelo militar de inspiração francesa baseado nas trincheiras  da primeira guerra fora esmagado nos primeiros meses da segunda. Como diziam os críticos de então, seria mais fácil ensinar uma cobra a fumar do que formar uma tropa brasileira hábil a lutar na guerra em curso. Durante todo o tempo os brasileiros foram preparados para lutar no norte da África e apenas quando se aproximavam do porto de Napoli perceberam que lutariam na Italia. Inexperientes,  todo tempo, enfrentariam frio intenso, chuva e lama, superando apenas na prática das batalhas a inexperiência em montanhas para as quais jamais haviam sido treinados. Desembarcaram desarmados e receberam armas e equipamentos sucateados americanos, entre os quais fuzis de um modelo de antes da primeira guerra. Foram lançados numa quadra do front na qual os aliados, para alcançar e libertar Bologna, precisavam romper a inexpugnável Linha Gótica, extensa fortificação alemã de ninhos de metralhadoras montada sobre as montanhas dos Apeninos. O ponto de passagem escolhido para a ruptura foi a montanha de Monte Castelo, e tal missão,  entregue aos brasileiros pelo comando aliado era nitidamente excessiva para a capacidade da tropa expedicionária. De novembro de 44 a fevereiro de 45, os brasileiros se bateram em seis ataques frontais em campo aberto às posições alemãs no alto da montanha, enfrentando tropas veteranas do fronte russo com suas metralhadoras que apelidaram de “Lurdinhas” e que disparavam mil tiros por minuto em façanha muito além à de qualquer matraca brasileira. A principal proteção dos soldados era queimar óleo cru na tentativa de esconder-se dos alemães enquanto avançavam montanha acima, ao mesmo tempo em que tentavam abrigar-se do fogo impreciso da artilharia americana que disparava para pretensamente facilitar os ataques. Só tomaram Monte Castelo em 21 de fevereiro de 1945, quando um grupo americano especializado em guerra de  montanhas escalou com cordas e tomou de assalto um monte vizinho permitindo ataques laterais  ao Monte Castelo, numa estratégia finalmente adequada ao objetivo. Essas batalhas foram responsáveis por mais da metade das baixas brasileiras de 443 soldados, 13 oficiais e 8 pilotos. Após o terceiro ataque malfadado, Mascarenhas de Morais foi chamado ao comando aliado e um  general americano lhe indagou friamente: “Afinal, a FEB tem ou não capacidade de combate?”

Se as tropas de Mascarenhas já tivessem ido até o fim de sua saga o pequeno general (pelo menos trinta centímetros mais baixo que seu superior americano), além de repetir tudo o que está dito aí em cima poderia ter acrescentado: em 239 dias de ação contínua contra o inimigo tivemos 8 grandes vitórias, recuperamos dezenas de cidades aos alemães, fizemos 20.573 prisioneiros, cedemos apenas 35 prisioneiros, tivemos um único caso de deserção e dos nossos 11.000 militares que não chegaram a combater ou foram postos  fora de combate, quase 8.000 o foram por doenças provocadas sobretudo pelas precárias condições materiais e salubres da tropa.

Mas talvez, a mais brasileira das façanhas da saga tenha sido a de um pobre soldado nosso que por força dos pés mergulhados dias e dias na água podre gelada de sua toca viu-os ameaçados pela maldita doença do “pé-de-trincheira”. Em vez de não fazer nada como os milhares de soldados de todas as nacionalidades vítimados pela doença,  sacou as botas e galochas, encheu de feno as galochas, enrolou os pés num trapo de cobertor seco e os enfiou novamente nas galochas folgadas, conservando as botas penduradas no cinto para os momentos de marcha e a circulação sanguínea dos pés agora folgados para que não gangrenassem. Este procedimento, de fácil improvisação e muito eficaz, passou a ser recomendado pelo comando aliado a todas as tropas em operação:  singelo exemplo de “matraca” brasileira.

Assim, apesar do primitivismo institucional  e da origem da maioria dos pracinhas no caldo da injustiça social da sua pátria, mais uma vez, como tantas na história, brasileiros inacreditáveis  ensinaram cobra a fumar.

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2 Comentários

  1. Homero querido, com emoção li seu texto. Meu pai, que ali esteve nas batalhas, trouxe tanto sofrimento e lembranças que, em respeito a tudo o que ele gostaria de esquecer, evitávamos questioná-lo e respeitávamos seu silêncio… obrigada!

    • Toda a minha reverencia aos homens e mulheres que as guerras sacrificaram e que neste país se impõem por todos os lados. Um grande abraço amiga.