Houve um país inacreditável onde sobrevivia a crença de que as crises se sucederiam como sempre e a resolução delas também.

Os poucos que lhe prestavam atenção (e eram mesmo muito poucos),

distinguiam dois tipos de filhos seus que não fogem às suas particulares lutas,

com todo o respeito, os Pequenos e os Grandes Filhos da Puta.

Como outrora já dissera, dos filhos da puta em geral,

o pimenta que no dos outros não arde,

lixando-se pro cinismo que julga o verso imoral.

E se, por certo, mais alguém houvesse, era invisível.

 

E tinham fortes convicções, esses fortes, de que toda crise afastariam,

pois nos céus da injustiça, nas asas da filha-da-putice,

volare,  cantare,  voariam.

Pensava, cada bravo filho seu que no respectivo não arderia,

ao tempo em que ajeitava a buzanfa

sobre dedos-de-moça em trança.

 

Mas eis que o mar de lama se abriu,

choveram gotas de chumbo

e o firmamento caiu.

E se foram os que chegaram a tempo;

e às sepulturas os sucumbidos à maldição,

ao sofrimento da alma, ao aperto no coração.

E se foi embora a infância,

e os sonhos dos namorados,

e foi extinto o tesão.

 

Os mais fortes saquearam,

os feios de calção surfaram na violência antiestética,

e os patetas  antiéticos plantaram fuzis nos quintais.

E apagou-se  a sombra sonora do disco voador.

O desespero em ordas marchou pra Venezuela perplexa.

E a  honestidade não foi encontrada,

porque nunca antes na história desse país estivera para ficar.

A dignidade já tinha ido embora pouco a pouco,

E na véspera, como última sentença, evacuara um côco.

Os pobres, mortos em vida, morreram a última vez

e pararam de encher o saco.

 

E pelas ruas  arribou a timbalada dos canhões.

E o tempo futuro, do país do futuro, passou a medir-se em eras geológicas.

E dando por finda minha intromissão, cito o singelo Joãzinho:

“Viva eu, viva nós, e o país dos urubús,

onde há pimenta pra todos

que arderá em todos os…”

 

 

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