Fiquei sabendo que existiria um pássaro com envergadura de avião de carreira que voa muito alto com os olhos fechados, talvez porque tenha medo de alturas. Com plumagem colorida brilhante que pode ser vista de toda a terra, seu canto mais inebriante que o das sereias, se espalha pelo  mundo. Mas tem um problema, suas asas, como certos ossos de gente velha, estão se calcificando, e pesam mais e mais, e gradativamente se enrijecem. Dizem alguns que poderá chegar o dia em que mesmo o mais antigo e bonito desses pássaros se imobilizará, e cairá das alturas morrendo de encontro ao chão. De olhos abertos talvez  pudessem  contornar sua miopia e enxergar mais longe, e pousar seguros, e alçar-se em novos vôos enquanto é tempo, mas sempre voaram de olhos fechados  e não sabem se suportariam abri-los, nunca tentaram.

 

Para mim a Italia é o mais antigo e magnífico exemplar desses pássaros. Vejo que para muitos por aqui,  o país vive uma realidade radicalmente ancorada na sua rica história, mas o que veem é uma crise sem fim,  e há quem já duvide das certezas da nação e dos presumíveis efeitos benéficos de seus milenares costumes. Veem seu país como antiquado,  desatualizado e de mentalidade conservadora. Sobre tal substrato acontecem coisas que assustam os italianos: a ameaça de caos institucional, o número de mortes que supera o de nascimentos, o rápido envelhecimento da população, a existência de seis milhões de pobres – entre os quais três milhões de miseráveis -, o grande desemprego da população jovem (mais de trinta por cento), o renitente crime organizado, a corrupção entranhada em qualquer ramo de atividade, a imigração abundante e improvisada de fugitivos da fome e da guerra – além de tudo enganados pelos atuais mercantes de escravos -, a aceitação do descumprimento a regras de convívio social, o grande peso humano e econômico da manutenção do imenso patrimonio histórico-cultural agredido pelos séculos e pelos terremotos.

 

Para além dos diagnósticos no papel, pode-se ver cenas que atestam essa realidade: velhos andando tristes e a esmo, centenas de milhares de jovens indo embora do país, lojas fechadas em todos os lugares, estradas e cidades com manutenção insatisfatória,  carros largados de qualquer jeito e em qualquer lugar, descrença completa nas instituições, anos sucessivos sem efetiva resposta às vitimas de catástrofes, quantidade imensa de casas e prédios em ruínas, protegidos por lei, abandonados nos campos e cidades, cinismo nas conversas e meios de comunicação sobre governos, instituições, confiança, esperança; eleições que terminam na inviabilidade de formação de um governo, produzindo por longo  tempo apenas a expectativa de novas eleições e, após meses de um show de incompetência e vazio de liderança, um governo do qual todos duvidam.

 

A pergunta seria (?): qual o desenvolvimento econômico e a riqueza que os italianos  poderíam gerar a partir de seu patrimônio cultural, artístico e paisagístico único no mundo?

 

Penso que para a Italia, como para todos os passarinhos, as perguntas nunca incluem o para que da riqueza, nunca incluem a razoabilidade de pagar com a sobrevivência do planeta o custo da riqueza, não incluem, no caso em pauta, o preço que pagam as sucessivas gerações para priorizar recursos escassos no sustento do peso do passado de trinta séculos de história conhecida.

 

Focando a última questão, é preciso pensar se não seria uma extravagância ver vitórias em todas as descobertas arqueológicas italianas, escavações e restauros bem sucedidos, a um tempo em as crises só aumentam, e que nem sequer mais riqueza material é gerada por esse esforço.

Escutei italianos (e italianas obviamente) dizerem que “l’Italia tutta è bella, mas está  cheia de ladrões.” Que “qui  se manggia bene”, mas que esta é a única coisa que nos restou. Que “sono tante cose belle”, mas não temos dinheiro para cuidar delas. Que “l’strade d’Italia sono  securi”, mas há vinte anos não recebem manutenção. E, no limite, que “a Italia é um pais morto, porque os que erram não pagam por seus erros e os que acertam não são recompensados porisso.”

 

Outro dia sonhei com meu amigo Vandeco. Na sua casa ele guardava um monte de coisas minhas: pastas, livros, objetos, peças velhas de automóvel. Tudo empilhado numa mesa da churrasqueira, impedindo a verdadeira missão dela ( a de reunir amigos, como as tantas vezes na minha experiência aqui, gravadas para sempre em meu coração). E ele, com sua típica sinceridade: “Se vai querer guardar leva embora daqui.” E deixava claro que não haveria mais tempo para eu ficar pensando se queria ou não: “Eu vou por no lixo. Tem coisa demais. Inclusive dentro de sua cabeça”. Acordei.

 

O significado do sonho para a minha vida pessoal me parece muito claro. Para uma Italia que sonhasse não tenho a menor ideia do que significaria.

Mas com uma moderada dose de petulância, e outra maior de carinho, eu diria (só para provocar): Italia, Italia! Tem passado demais no teu presente, e isso pode não dar futuro.

 

 

 

 

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