A história da Italia é de incrível complexidade. Por desconhecimento acho melhor não me meter a besta no tema. Mas algumas coisas que encontramos por aqui são deliciosas demais para serem ignoradas, mesmo que abordadas apenas do ponto de vista de seu lustroso invólucro. É o caso da rivalidade entre cidades, que se um dia produziu conflitos variados de consequências dolorosas – e dolosas, persiste agora no imaginário dos que “perderam” as disputas e repetem, pelos séculos dos séculos,  que se as condições distintas tais e tais tivessem ocorrido, se isso e aquilo não tivesse acontecido e aquilo e isso tivesse, hoje as suas respectivas cidades seriam maiores e mais importantes, pois melhores, isso nunca esteve em dúvida, sempre foram. Pavia (70.000 habitantes) fica a trinta quilômetros de Milano (1.300.000 habitantes),  já foi maior que ela, e capital dos longobardos. Gubbio, a antiga capital mundial da lã, na Umbria, foi ultrapassada pela vizinha Perugia. Urbino, a cidade de Raffaello, em Marche, por esforço do Duque Federico da Montefeltro, quiz rivalizar com Firenze, a Capital do Renascimento, e foi artisticamente batida, dizem alguns que com a ajuda do surrupio de parte de suas  obras de arte pela poderosa  turma dos Medici da Florentina. Essa mesma Firenze, um dia sob o mando de Siena, depois a submeteu à sua hegemonia. Alguns pocos exemplos de muitas dezenas de casos.

 

E é aí que, após mais alguns rodeios, chegaremos  aos instigantes detalhes referidos no título. Urbino é imperdível. O Palácio Ducale, Patrimônio Mundial da Humanidade, hoje Galleria Nazionale delle Marche, é emblemático. Quando você o visita não precisa visitar mais nenhum outro do gênero (um dia se der, vou escrever uma lista de “coisas para quem tem pouco tempo visitar para não ter que visitar mais nenhuma do mesmo gênero e sair satisfeito”, tipo San Marino para castelos, Forte Barth em Val d’Aosta para fortaleza, Basilica de São Francisco em Assisi para  catedral, Teatro Olímpico de Vicenza para teatro, Palazzio Reale em Torino para palazzo, Crota de Frassasi para cavernas, Costa Esmeralda para mar, Labro para burgo medieval…)

 

No Palácio Ducale de Urbino, a obra mais importante é um quadro de Rafael, “A Muta”. Quem tem lembrança de “La Gioconda”, de Leonardo Da Vinci, reconheceria semelhanças entre os dois. Alguns críticos dizem que eles são da mesma importância artística, obras–primas de igual valor,  embora a de Leonardo tenha sido roubada para o Louvre por ser muito mais famosa ou ficado mais famosa por ter sido roubada para o Louvre (acho que a única coisa que se  rouba mais do que obras de arte no mundo é o Tesouro Brasileiro).  “A Muta”, teria adotado uma perspectiva de ruptura artística com o sfumato usado na obra rival, coisa que entendidos podem esclarecer. O fato é que quem olha para ela sentirá a presença do mais lindo olhar triste misterioso que se possa sentir, um leve aperto no peito e a vontade de levá-la para casa. Já quem olha “La Gioconda”   sentirá a presença do mais lindo olhar sorridente tímido que se possa sentir, um leve aperto no peito e o impulso de levá-la para casa. E o detalhe? O detalhe é que nem uma delas teria todo o valor que tem se não fosse a outra. O valor de ambas é potencializado pelo contraste que produzem. Não se trata de suportar a tristeza nos momentos que a alegria não está, mas de amar uma  e outra ao nosso próprio jeito. Desculpe-me o poetinha, mas não é “melhor ser alegre que ser triste”, é inseparável ser alegre e ser triste. E me desculpe você pelos rodeios e pelas conclusões que é coisa que cronista não deveria tomar.

 

Nesse mesmo Palácio Ducale de Urbino, entre tantas coisas belíssimas vaidosas alegres tristes, tem uma salinha fantástica que foi  o Studium do Duque, espaço pequeno, descrito no roteiro como o mais íntimo da estupenda estrutura: uma câmera decorada para instigar a meditação sobre os negócios, a expansão de poderes, a fortaleza espiritual. Cada centímetro de suas paredes foi revestido por aplicações de dezenas de tipos de madeira sobre uma base de nogueira, uma espécie de machetaria multicolorida, em detalhes  a recomendar cuidados, virtudes, ousadias, coragens, humildades, que todo bom Duque deveria ter. Essas micro-esculturas e mosaicos de tantos tipos foram feitas um pouco por cada artista em tempos diferentes. E o detalhe? O detalhe é que na parede ocidental (é assim que está escrito no cartão), num pedaço do tamanho de cinco por dez centímetros, existe uma combinação de formas geométricas que me deixou intrigado: um retangulo, e dentro dele um losango cujos ângulos tocam o retângulo simetricamente nos quatro lados, e dentro do losango um círculo cuja circunferência toca os quatro lados do losango, e que guardam proporções no mínimo próximas às  de um símbolo muito caro aos brasileiros. Só faltaram mesmo o verde-amarelo-azul e branco e as estrelas. E daí? Sei lá. Pensei até em plágio. Sem maldade. E, considerando que a parede do Duque Federico Molntefeltro é de 1.490, neste caso, como deve ser, chegue você às conclusões, e depois me conte.

 

* Estou numa fase de títulos esforçados de chamamento para a leitura dessas coisas que escrevo. Esse aí não é de minha autoria, mas é sentença que já usei em vários contextos. Ao fim do texto avalie se tem alguma coisa a ver.

 

 

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