Num de nossos giros por aqui andávamos pelo centro histórico de Spello, na Umbria, quando ao passar numa sede de partido político vi na vitrina um anúncio que fotografei: “…è ottuso, è sordido, è prepotente, è agressivo, è ignorante, è grotesco…Visto che siamo in Italia……potrebbe (poderá) rivincere (vencer outra vez) lui…” Ele, no caso, sorri no anúncio em asquerosa imagem: Silvio Berlusconi.

 

Pois é, mesmo em países como  Inglaterra, França, Alemanha, Espanha, politicamente menos ordinários que o Brasil e a  Italia, onde a mesquinharia e a corrupção sistêmica e sistemática devem ser somadas às demais dificuldades, a falta de resultados da democracia tradicional tem gerado, por dentro dela, estranhos fenômenos. A ameaça de chegada ou retorno desses Grillo e Berlusconi na Italia e desses Lula e Bolsonaro no Brasil estão entre eles.

 

Para mim a ameaça substantiva, não é resultado da demonização da política, muito menos dos partidos, com seus humanos problemas que, segundo Cortella, são sempre mais pungentes nos primeiros quinhentos anos de uma democracia, mas sim de temerária falta de cuidado com a própria.  É mais do que fazer ou não fazer reformas (que devem sempre ser feitas para promover equidade sejam quais forem as diferenças em jogo);  é mais do que o começo ou o fim de um populista totalitário dessa coisa sem sentido de esquerda e direita porque esses psicopatas sempre se deram bem na política das promessas vazias; é mais do que o império maniquesista do reino da corrupção contra o reino da utópica assepsia; é mais do que a existência de um estado x ou y com suas prepotentes políticas públicas. Penso que no Brasil, nesse momento, é sobre garantir um regime no qual errando e acertando uma nação possa cumprir a sua história ciente de que a democracia é o bem maior.

 

Mas as pessoas se perguntam: para que serve uma democracia sem resultados? Quando a teremos apta a a resolver a nossa agenda medieval? No imbecilizado Brasil, reino da miudeza e da sordidez, da falha moral e da falta de caráter, dos pequenos expedientes e dos interesses pessoais, da falta de comoção com as diferenças materiais e com a miséria moral de toda nação, fica difícil a resposta convicta a respeito da defesa da democracia como condição para avançar, mesmo aos trancos e barrancos, como sempre foi em qualquer nação, com avanços e recuos como os desse últimos dezesseis anos no Brasil cujas funestas consequências enfrentamos agora, na paz ou em guerra, se crescer em demasia a insensatez de nossas “lideranças” políticas.

 

Mas a resposta tem que ser dada. Numa perspectiva histórica de médio e longo prazo (e aí é que está, pois nesse tempo estaremos todos mortos), acredito que só na democracia poderemos  encontrar saídas. Se ela precisa de tempo para avançar e superar os recuos, nós que poderemos não ver seus avanços, pois mortos estaremos, poderíamos sempre lutar para estabelecer as condições necessárias para avançar. Não há garantia de que não falharíamos, mas nunca faltará a possibilidade de que, diante do fracasso,  a morte como solução chegue mais rápido, até mesmo na condição do aniquilamento da humanidade inteira, como desfecho ultrainsensato final (claro que esta última frase não é só sobre o Brasil porque nem ele seria capaz de obra tamanha).

 

A principal agenda de Estado hoje no Brasil e no mundo é a salvaguarda da democracia, das regras, da merda da civilização. E claro, faz parte urgente desta salvaguarda, a fundação de novos mecanismos para seu funcionamento. Que possam ir além de partidos e eleições, de executivos, legislativos e judiciários. A conversa, o acordo, o convencimento, a coligação de forças, a escolha do mal menor, a prevalência da maioria, o respeito às minorias, precisam ganhar novos métodos de manifestação, através de consultas instantâneas, de eleições contínuas, de mandatos ad doc, de dialógos virtuais, de interatividade constante, de limite no número de mandatos, de controle da adicção aos privilégios.

 

Tempo desses, numa roda política, recordei Churchill e seu discurso de sangue, suor e lágrimas como adequado ao Brasil de hoje. Fique você aí imaginando a recepção da ideia e o resultado da provocação. Isso é problema. Nesse país ninguém acha, nem mesmo o Lula, que deve alguma coisa para alguém. E alguns ainda acreditam que a solução é a tomada ao palácio com o Lula na liderança. Incluam-me fora dessa.

 

De qualquer forma já passou da hora: nós, o “nível superior” do Brasil,  temos que dizer quais são os planos.  E no meu entendimento eles terão que incluir, necessariamente, mais e não menos civilização, instituições do Estado de Direito  mais fortes e não mais fragilizadas, mais e não menos paciência com os processos institucionais, mais solidariedade com os que estão sem trabalho e sem renda, mais equidade com diminuição das diferenças, mais efetividade na ação de Estado dentro do preço que o país pode pagar, mais e não menos sacrifício dos abonados entre os quais me incluo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

limpar formulárioPostar Comentário