Leio numa edição antiga do jornal La Stampa de Torino sobre escândalo que envolveu uma empresa familiar de Novara da maior importância na Europa: seis mil empregados, duzentos milhões de euros de faturamento anual. Qual o negócio? Genialidade italiana. Especialistas em isolar ambientes do frio e do calor, aquecer e resfriar, levar energia e medi-la na entrada e na saída, canalizar água e gás, em soluções desenvolvidas caso a caso, seja ele qual for. Há algum tempo o patriarca, que tem três filhos, dividiu a empresa em 33% para cada um. Não lhe parece certo? Pois é, mas o fato é que deu na maior confusão. Pai com filho contra filho com  filha e netos (embora eu pense que como toda mulher em empresa familiar italiana esta teve um papel, digamos, mais coadjuvante). Alguém roubou trinta milhões de euros (jóias, ações) do cofre da mansão do velho em San Maurizio d’Opaglio, e o envenenaram com psicofármacos por meses, na tentativa de uma das partes de interditá-lo. Um outro escondeu quilos de cocaína na casa do irmão desafeto e chamou a policia. Um juiz de Torino impos a todos uma pausa de seis meses  para reflexão. Não sei como as coisas estão. Não pesquisei, porque meu interesse esgotou-se apenas na confirmação de que “tudo que existe vem impregnado do seu contrário”. Em todo caso Giacomini SpA lotará sua pesquisa de internet se você for   fanático por empresas fantásticas e mesquinharias familiares  chiques.

 

Toda comune na Italia, geralmente nalguma fachada do Palazzo Comunale, traz a relação dos que morreram nas grandes guerras. Sou fascinado por estas listas. Sempre que chego num lugar é uma das primeiras coisas que procuro. Fico imaginando os dramas por traz daquelas mortes. Muitas vezes, três ou quatro de uma mesma família, em alguns casos mortos de um mesmo sobrenome na primeira e na segunda grande guerra, quase sempre jovens,  com menos de vinte ou com vinte e poucos anos.  Alguns dramas se destacam, como de grupos locais inteiros mortos numa única batalha, ou centenas de caduti na defesa de uma posição, ou uma fileira de partigiani exemplarmente enforcados em cada uma das árvores de uma avenida . Mas, por muitas listas, uma coisa me intrigava. Nunca havia encontrado um Giacomini nelas. Ficava pensando que, afinal, isso podia ser um sinal de resistência, de malemolência, ou de resiliência, como inventaram agora; o protetor jogo de cintura brasileiro como legado telepático dos italianos do além mar.  Afinal, qual a graça de  morrer na guerra com um balaço num peito tão cheio de amor? Mas, confesso, que me sentia frustrado. Um pouco envergonhado por não ver constar o sobrenome antepassado nas listas dos heróis da pátria originária. Mas eis que um dia em Macerata  e noutro em San Marino, bati os olhos e eles estavam lá, destacando-se, como só os românticos seriam capazes de se destacar. Não sei quem foram, nem das lágrimas de chumbo que suas famílias  por eles derramaram, só sei que do nome da lista de San Marino jamais esquecerei: Giuseppe Giacomini, homônimo do meu nonno. Como diria um Giacomini brasileiro que eu amo: “Esse era dos bravos e aí se fodeu”.

 

Sempre que morre alguém os italianos penduram em murais pela cidade, um anúncio meio vintage que lembra aqueles cartazes com imagens de santinhos católicos, publicando o ocorrido. Declaram alguma qualidade do falecido, listam o nome dos filhos e netos, que se despedem e juram lembranças eternas, recomendam-no aos céus. Trata-se de uma forte e antiga tradição. Quando morre uma viúva esta particularidade ocupa lugar de destaque no anúncio.  Ao contrário, evidentemente, não se dá importância. Quando estive em Fonsazo procurando a certidão   de nascimento do Nonno visitei a igreja e lá estava: “Anunciamos a morte da Sra. Fulana – Vedova Giacomini…”, naquele exato dia. Eu que tinha conversado com moradores na rua perguntando pelos Giacominis e ouvindo como respostas antipáticos e desconfiados, “no  lo so”, no lo so perchè (mas desconfio), enxerguei logo a oportunidade de por as coisas em seus devidos lugares. Na hora anunciada no enlutado cartaz dirigi-me à capela do velório. Entrei, subi numa cadeira ao lado do caixão e anunciei, num bravo italiano previamente treinado, que estava ali como representante de todos os Giacominis do Brasil, e fora enviado para tomar posse da nossa parte da herança da viúva. Imediatamente, um italiano chutou a cadeira, e minha quase queda transformou-se num equino trote para longe dali. Eu sei que você sabe que esta não é a verdade, apenas a expressão de um desejo que não realizei. Frente ao cartaz lá na  porta da igreja, após pensar tudo isso, fiz uma oração pela Sra. Vedova Giacomini e fui embora com a certidão de nascimento do Nonno embaixo do braço. Penso que para nunca mais voltar.

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11 Comentários

  1. Caraca, Homero.
    Fez-me rir um monte. Obrigado pela excelente crônica. Até me imaginei assistindo você, em cima da cadeira, fazendo um discurso não de Giacominis mas de qualquer brasileiro descendente de italianos que se preze, berrando pelo legado que “nos pertence” kkkkkk.
    Assim, em que pese sua desistência de primeira hora, se você insistir em subir, de verdade, numa cadeira e fazer seus reclames, saiba: EU TE APOIO. kkkkkkk
    Um grande abraço com a saudade que estamos sentido de vocês.

  2. Então … foi para Fonzaso ? Também percebi que eles não gostam de dar informações sobre as famílias que permaneceram na Itália…Um beijo para vocês !

  3. Adorei amigo Homero,espero poder ler muito mais enquanto estiveres pela Itália, vai que encontre algum Franceschetto com uma história interessante para contar! Abraços .

  4. Homero, enquanto lia passava um filme pela cabeça. Uma bela crônica que por alguns minutos aguçou minha imaginação e também me fez rir. Saudades!