Dia desses uma TV brasileira anunciou para a meia-noite o desligamento do sinal analógico. Um grande amigo mandou uma mensagem dizendo de suas preocupações: medo de sofrer um apagão, de virar abóbora a meia-noite, de tornar-se, imediatamente, incompreensível. Por via das dúvidas, ele se despedia, dizendo que tinha nos amado a todos, tantìssimo.

 

Imediatamente, remexi o meu baú, catei as válvulas do meu projeto original e pus para esquentarem.  Lembrei que sou do tempo em que alguns transistores também já eram usados e liguei-os em série, da melhor forma possível, às minhas velhas queridas válvulas. A minha ideia era, confirmando-se os temores do meu amigo, usar aquele possível átimo de tempo em que o analógico permaneceria no ar para, velozmente, desligar a USB e enfiar os pinos na tomada (evidentemente, não me esqueci de providenciar um intermediário). Claro, havia nisso um pressuposto, o de que o sinal analógico se extinguiria aos poucos, como o faziam as válvulas dos velhos tempos,  e todos nós desde que nascemos.

 

Fiquei assim mais tranquilo, pensando que garantia minha definitiva passagem para esses tempos nos quais, embora tanta outra coisa se pudesse discutir, discute-se a questão de que qualquer idiota pode emitir sua opinião para muitos cibercidadãos (só cometo a indelicadeza de dizer porque quem disse foi o Umberto Eco). E mais o  fato intrigante de que aqui na Italia, onde o analógico foi desligado há mais tempo, depois disso, já devem ter sido escavados mais uma meia duzia de teatros romanos, com seus mármores travertinos analógicos.

Vejam alguns aspectos do que seria o meu próprio mármore ou, melhor dizendo, cara de pau. “Hoje posso contar em tempo real o que estou fazendo de bom. Se acabei de acordar e estou escovando os dentes o teeth brush  permite-me documentar: quer ver? Cadastro você. Depois irei defecar  e via  o shit cam você poderá comparar meu hoje com meu ontem. Espero que não sobrevenham fatos novos. Logo, logo, não precisarei descrever “odor puxado a metano com traços acentuados de mercaptanas que tardam a evanescer”, pois o app vai ter um up e logo terá odores em real time.  Meu café da manhã e o to ogle: minha xícara de capuccino, aonde na farta espuma sobrenadam duas bolhas maiores, e meu pão, em breve com manteiga (no café da manhã, para os italianos, falha grave de conduta).”

Com válvulas ou microships (hoje quânticos), produzir minhices é sempre tarefa da solidão; e o ciberespaço e suas traquitanas são caixa imensa de ressonância, um grande tambor cibernético, também para o fumacê denso que verga ao vento do besteirol existencial (desconfio que seja o caso do meu…), e o espalharia pelos Universos à procura de alguém.

Ah meu besteirol! Tenho medo de você. Que circula com tudo pronto, e mete diante de mim só imagens do passado, só visíveis  a olhos cegos. É assustador  mas, na sua presença,  não vejo nada quando abro os olhos. Na sua presença, de olhos abertos,  não vejo nada, mesmo que passem por meus olhos essas sequências de combinações de vinte e seis sinais desse alfabeto latino desse meu lugar, dessa plataforma dessa estação,  capazes de infinitas frases naquela babel de livros que eu poderia ler para sempre para trilhar caminhos improváveis, vislumbrar imagens novas, mesmo absurdas, sempre imagináveis…à procura de alguém.

Complicadas palavras, o verbo, que segundo consta a tudo antecedeu. E os apps que talvez já estivessem lá, embora ainda não inventados. E a rainha Vitória pela qual passamos para chegar até esse pretensamente liberto mundo e poder dar publicidade até mesmo à nossa merda.

Porisso que agora, “tá tranquilo, tá favorável”.

 

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