Na  entrada de um café em Viterbo, no Lazio, próximo a Roma, após um dedo de prosa sobre a beleza do palácio etc, ouvi do Senhor Agostino, um restaurador de prédios antigos, a seguinte história.

Ele, um filho de tradicional familia viterbese, nunca se envolveu em qualquer encrenca. A única vez que saiu no jornal foi por causa de um trabalho de restauro artesanal no esplêndido palácio do cardeal Windman em San Martino al Cimino, que lhe valeu o reconhecimento de artista.

Mas eis que um dia recebeu em casa uma carta da polícia local. Abriu o envelope e estava lá: multa  de 359 euro porque dia tal e tal, a tal hora, numa estrada de Tuscania (município vizinho), quem sabe dando adeusinho pelo parabrisas, tinha sido flagrado a dirigir, o que só poderia ser um protótipo supersônico, a 1053 km / hora.

Seu Agostino procurou a repartição na certeza da pronta correção do êrro, certamente eletrônico, via uma atitude simples, rápida e de puro bom senso do agente de plantão.

Mas não, nada podia ser feito, ele deveria recorrer às vias legais. Seu Agostino disse que seu carro velho não passava dos cem nem a pau, que nunca tinha visto falar de um  capaz dessa façanha, nem em Viterbo ou em qualquer outra parte, não só da Italia mas do mundo. Não acreditava que nada podia ser feito, tinha que ser mais fácil, todos deveriam levar aquilo como a piada que era: ele poderia ser autorizado a, simplesmente, rasgar a tal multa. Não. Não senhor. O senhor deve é recorrer. Seu Agostino pediu para ver o chefe. Não dá. O sub-chefe. De jeito nenhum. Por favor! Não. Exepcionalmete! Não. Seu Agostino emputeceu e saiu da repartição ribombando imprecações italianas das piores espécies: porca miseria, figlio de un cane, cavolo, porco zio, zio porco etc!

Arquitetada a vingança Seu Agostino procurou um repórter e contou sua história. O repórter fez de tudo para entrevistar o chefe da polícia, um certo Senhor Perdon, do qual não se estava pedindo misericórdia mas a simples virtude do reconhecimento de um êrro crasso. Abordando-o de emboscada na saída do quartel acabou por enfurecer o comissário que arrancou-lhe das mãos o microfone e entre, como sempre, ribombantes imprecações italianas da pior espécie, o arrebentou com as mãos e pés em dez pedaços, num ato imperdoável segundo o repórter e a Italia inteira.

Enquanto isso, Seu Agostino procurou o juiz de paz  que, mediante caução de 700 euro, prometeu analisar o caso. Mas a solução veio foi (incrível português!) da repercussão nacional que o caso ganhou, e que acabou levando à demissão do Senhor Perdon por prevaricação, sem perdão, porque se exigia em praça (melhor dizendo, em antigo teatro romano) uma firme atitude  de seus superiores. Porca miseria, porco zio, tutto quelo etc.

            Seu Agostino diz que até hoje aguarda a devolução dos euro da caução já que acha que o juiz não teve nenhum trabalho com seu caso velocíssimo. Aposentado, anda por Viterbo com uma camiseta vermelha onde se lê: O Míssil de Viterbo. E  adora contar a sua história para desocupados como eu.

Viva a Italia!

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8 Comentários

  1. Homero, obrigado pelos seus artigos sempre muito inteligentes, de bom gosto. Esse é hilário! Coitado do Sr. Agostino kkkkk Viva a Itália! Parabéns à todos os seus artigos já compartilhados!!!! Obrigado.