Cidades são como livros, realizam-se na intersecção de autores, textos e leitores. Para que adquiram substância não pode pode faltar nenhum. Manifestam também um caráter, uma personalidade e um comportamento, determinação e consequência do que nelas se pode encontrar. Se for assim, pode existir a cidade de cada um, com suas diferenças e novidades a cada leitura, com a condição de que o um seja alguém que, além de nelas estar, goste de nelas imergir.

Pronto. Espero ter tornado admissível o meu ponto de vista sobre uma cidade muito grande, que é admirada em todo o mundo, cobiçada por todos os ricos e pobres do mundo, pioneira no desenvolvimento das instituições do mundo, ainda mandona em boa parte do mundo, ostentadora de quase todas as elegâncias do mundo, com o mundo, pelo mundo…O fato  é que, a convite do grande amigo Leandro, fui a Londres e  a minha primeira leitura me revelou um mundo fantástico, mas hostil.

Como toda cidade grande demais coisas boas demais e coisas ruins demais. No caso, todas elas, sem maniqueismo, engendradas na pirataria de Sir Francis Drake, certificada e protegida por Elisabeth I,  na estratégia de rapinagem elegante – ou nem tanto – que amealhou boa parte da fortuna do Império; ou de centenas de acordos dissimétricos que deram, por exemplo, na Tríplice Aliança contra o Paraguai, com a agenda inglêsa oculta de aniquilamento da indústria metalúrgica e textil do pequeno país;  ou de Greenwich, imposto  aos outros como tratado que definiu os jardins do Observatório  Real como uma espécie de umbigo horário do mundo conferindo à Coroa vantagens competitivas comerciais que ajudaram a manter o trono inglês quase sempre num patamar alguns palmos mais alto do que o resto nas transações financeiras mundiais, sobretudo nos atuais tempos de neoglobalização; ou de demonstrações de ilimitada corajem de psicopatas do bem como o visionário Churchil que para salvar a pele da ilha, em grande medida, salvou o mundo do nazifascismo.

A Londres que eu vi lembrou-me pilhagem reciclada, reamontoada com graça e resignificada em grandiosas arquiteturas, mas também testemunhada pelas coleções de obras de arte cuja autoria e pertença ficaram na Itália, no Egito, na Indochina, nas Américas, e onde mais os seus heróis tenham vencido, pelas armas ou pela diplomacia das esterlinas; megacidade que cheira a paradoxo, exalado da presença de gente de mil partes do mundo  e das concomitantes urnas do Brexit, a adensarem a milenar ideia de que  urso branco no fosso da Torre de Londres ou  crocodilos no Atlântico seriam a saída para as ameaças aos súditos da ilha, sejam os legítimos seculares ou os arrivistas contemporâneos.

A elegância está por toda parte. Nas casacas impecáveis dos mordomos impávidos nas portas dos palácios sob o frio implacável, a expectarem sem um segundo de desatenção o esperado desembarque de um naco da abundante  nobreza de um coche negro conduzido por um cocheiro com uma imensa capa negra puxado por seis cavalos negros que levantam nas patas traseiras quando estancam abruptamente na rua negra sob ordens de Vossas Excelências em mais um dia de fog negro; está na troca da guarda no palácio de Buckingham com seus tambores rufados por sincrôníssimas baquetas, e nos passos de ganso dos soldados de elite que, após a bomba, os porta-aviões nucleares, a RAF e os drones,  constituem pelo menos a vigésima linha de defesa da simbólica rainha, e só perdem em perfeição de movimentos e cerimonias para as marionetes de Kin Jong-un, no espetáculo que há séculos ali acontece para inglês ver,  acompanhado de crescentes multidõe de turistas agora com medo do terror.

Seus personagens são vendidos em todos os cantos e você pode encontrar os Beatles atravessando matreiros a Abbey Road todos os dias;  pode ouvir pelas esquinas sussuros de Falstaff, Hamlet, Lear, a lembrarem que as virtudes e as vicissitudes da natureza humana foram reveladas para sempre e seu decifrador definitivo é inglês como só poderia ser;  vai trombar com o imaginário de barrigudos de fraque e cartola, crianças maltrapilhas pedintes, malfeitores de casaca listrada, trabalhadores esquálidos: poemas vivos que desfilam as denúncias de Dickens aos olhos dos vitoriosos vitorianos de então; e pode até tomar uma cerveja com a orelha esticada para a conversa de Sherlock olmes HolmesHolmes no balcão de madeira vermelha ao lado, no pub de mesmo nome.

As monumentais tragédias da cidade, tão parecidas com tantas de outros lugares, adquiriram em Londres o ethos da realeza, da fleugma que não se deve perder por nada, do pragmatismo no enfrentamento e no ir em frente,  e ficaram parecendo desastres arrumadinhos, num contexto de história épica bem tecida, com seus registros realistas fantásticos. O grande incêndio de 1.666 começou nada menos que na padaria do padeiro de Charles II em Pudding Lane, pois o homem foi dormir sem apagar o forno. Um terço da cidade material deixou de existir, mas o diminuto número de vítimas permitiu enquadrar a catástrofe como oportunidade de reconstrução higiênica da cidade, favor divino muito mais do que maldição. Além do que, o incêndio botou a pá de cal na grande peste, que no ano anterior havia matado um quinto dos londrinos e que foi totalmente esterilizada nas chamas, rendendo a polêmica de que o padeiro, primeiro acusado, como homenagem devesse ser sepultado em Westminster. Quase três séculos depois, nos difíceis anos pós segunda guerra, os ingleses exportavam seu carvão de alta qualidade para fazer divisas e consumiam o refugo com alta quantidade de enxofre. Num inverno rigoroso de muita neve as pessoas tiveram que queimar mais carvão para se aquecer. O fumo tóxico resultante retido na neblina regular sobre a cidade concentrou-se ainda mais por conta de uma inversão térmica e durante alguns dias invadiu casas e edifícios; em algumas semanas 12.000 pessoas morreram, entre mais de 100.000 que ficaram doentes.

As tragédias recentes, cautelosamente, da minha parte não serão tema de tentativas de crônica. O épico necessita de tempo para pasteurizar-se, penso que mesmo para a  fleugma elegante real inglesa. Mas não se pode deixar de ver as dezenas de arietes imobilizados espalhados por pontos chaves de concentração de pessoas em Londres. Pontudos, pesadíssimos, fixados ao chão, recobertos de aço, prontos para partir em dois veículos que contra eles se arremessem nas atuais imprevistas batalhas do terror. Diferentes daqueles dos meus filmes de infância com cercos a castelos,  que acionados por cavalheiros punham abaixo portas aparentemente indestrutíveis para salvar princesas indefesas.

E também não se pode deixar de sentir a falta de lixeiras na maioria dos lugares porque nelas bombas terroristas poderiam ser escondidas; e apreciar, por exemplo,  a solução na forma de uma senhora bem uniformizada que circula pela Victoria Station disponibilizando um cesto por certo devidamente inspecionado onde se pode  depositar resíduos cuja reciclagem, face às bombas, convenhamos, tornou-se coisa de nenhuma importância.

E entre tantas perplexidades, admirações e estranhamentos, entre emoções diante dos incontáveis memoriais aos tombados  das incontáveis guerras vividas por este povo, eis que vejo, de relance, o mais enternecedor dos monumentos desta fantástica cidade hostil. Um monumento a eles que, como as crianças, nunca entenderam nada mas também tombaram: cavalos (nove milhões só na primeira guerra), cães, pombos, gatos, elefantes…Lá está, num lugar nobre, o  comovente memorial Animals in War, acompanhado da fleugmática, pragmática, nobre, cínica, elegante inscrição, que em Londres, seja qual for o fato, parece jamais faltar: Não tivemos escolha.

 

 

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