Quando uma coisa como a que se prenunciava teria acontecido? As guerras, por mais sangrentas, deixaram intocada grande parte da humanidade; os genocídios, não alcançaram a todos os povos. Quem sabe a peste bubônica? A gripe espanhola?  A grande depressão?  A todas,  a humanidade tinha sobrevivido, mas e agora? Nada até então tinha sido vislumbrado como tão potencialmente destrutivo. Uma tragédia que se anunciava global, talvez cósmica. Mas não de todo imprevista. Houve sinais de que aconteceria. Muitos tinham  intuído,  para logo depois sentir e, por fim, dizer  e repetir: alguma coisa estava errada. Uma bolha contaminante crescia a partir do umbigo do mundo e, certamente, mesmo as maiorias presas na indiferença não ousariam discordar, algum efeito produziria.

Os sinais não foram expressivos, mas, embora por longo tempo tenha permanecido como um vago mal-estar, a coisa se agudizava. Logo o mundo, carcaça combalida,  gemeria agonizante. As estruturas da sociedade dos homens caqueleavam como canequinhas esmaltadas que ao caírem no chão começam a se estilhaçar e, mesmo depois de seguras nas mãos, assim prosseguem causando arrepios.

É verdade que as instituições tentaram reagir. Como em noitadas de forró com turista, tinham se posto a dançar: homem com homem, mulher com mulher, ao som de berimbaus e balalaicas, merengue e samba quadrado, com ou sem rebolado, na rua, na chuva, na fazenda.  Foram tentados novos líderes, velhos discursos, juros pra lá e pra cá, poções, pacotes e que tais.  Efeitos colaterais enregelavam empregos e espinhas, extinguiam consumo e consumidores, financiamentos, financiadores, e a vergonha na cara. O mundo dava os últimos passinhos de dança louca ao som de tuba com gato, piruetava levemente, e… parava.

Genésio sabia. Poderiam sabê-lo todos os que tivessem usado as mortais antenas,  mais um leve esgar do olho do centro do osso frontal do crânio, que nos últimos tempos brotara em Genésio.  Ele até tentara alertar: tartamudeara emocionado, lancinara enfurecido, vagueara vociferante dislálico; desenhara, gesticulara e, reiteradamente ignorado, partira solitário para os preparativos.

Seu frenético ir e vir não chamou a atenção, uma vez que as pessoas eram onidesatentas. As sucessivas cargas do veículo, desembarcadas sob o acobertamento daquele guarda-sol, fizeram apenas com que os vizinhos dessem de ombros, pois as esquisitices de Genésio eram velhas conhecidas e o guarda-sol, velho também. A casa ficou atulhada,  sótão e porão reservados para a água.  Genésio estourou os cartões de crédito, e os credores que se lixassem, pois em breve, ele sabia, a ordem do mundo não  faria sentido.

Em meio a movimentos com pinta de alucinações paranóides,  mediante  tremores furtivos descontinuados, lalações sussurradas incompreensíveis, só se podia esperar que a família mudasse. Sob  juras de fé e esconjuramentos,  um desolado Genésio viu a filha ir para a casa do namorado e o filho adolescente para uma república de  estudantes. Ficou só ele e a velha.

Durante dias dedicou-se a esmiuçar suas providências, analisando riscos e traçando planos que o pusessem seguro da sua capacidade de resistir. Revisou os  estoques de remédios, livrou-se de uma parte dos materiais de limpeza e baniu da cabeça a ideia  recorrente de ficar muitos meses sem tomar banho: adquiriu todo o estoque de lenços  higiênicos que encontrou.

Mas eis que as catecolaminas se exauriram e Genésio contrariado e ansioso viu-se a pensar que suas minuciosas providências, por mais que muitas vezes as renovasse, seriam sempre irrelevantes.  Quanto tempo aguentaria? Veria outra vez rodarem as engrenagens do mundo?  E se tal acontecesse, algum sentido novo lhe seria acrescentado? Deixaria da luta contra si próprio: Genésios  divididos presos à mesma ilha infeliz?

Sentiu-se mal mais uma vez, de um mal ainda não sentido vez nenhuma. Lúcido, pediu aos filhos que voltassem. Disse que de louco todo mundo tem um pouco e é o mundo o pai dos loucos; com um pouco de sorte, um dia eles entenderiam, não o mundo, mas o fato de serem um pouco loucos também. Queria que soubessem, lutara sem nenhuma originalidade, o que fazia da sua, a luta mais genuinamente humana. Resignara-se às opções a ele desde sempre oferecidas, exercendo os papéis de funcionário, escoteiro, rotariano, pessoa física e aeromodelista. Nos dias recentes, tinha abraçado aquela que, por um instante, pareceu ser a mais original de suas batalhas: acabar seus dias como a personalização da resistência à implosão da nave-mãe naufragada em sua sofreguidão, lançada aos destroços na praia solitária da alucinação de sobrevivência, com ele na liderança. Mas caíra em si.  Caíra mais do que jamais caíra, num buraco bem ao fundo, aonde era capaz de gozar o intenso gozo dos, enfim,  sagazes gozadores.

Não se desculpava nem queria compreensões, não havia explicações a dar nem perdões a conceder. Simplesmente enxergava, e queria apenas juntar os cacos e aprisionar para sempre o que sentia. Sonhava tão somente com a possibilidade de que pudessem, ele, seus filhos e a velha, beberem, resignadamente, do mesmo cálice  embaixo, naquelas fontes abissais.

Dito isso, que lhe soou como tudo, que mais haveria a dizer?  Agora era agir, como sempre fora de seu caráter, meter mãos à obra, fazer o que importava: convidou a velha para jantar – e que não estranhasse seu apetite – e depois para o teatro, ou vice-versa.

E o mundo líquido que se louquefizesse.

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