O primeiro parágrafo refere-se a Itália. O segundo ao Brasil.

 

A instituição do Serviço Sanitário Nacional foi uma reforma de grande valor político e tratou de por em prática o artigo da constituição que garantia o direito de todas as pessoas à saúde. Antes dele a assistência era provida por grande número de institutos ligados a distintas categorias profissionais que financiavam, mediante pagamento específico obrigatório, uma assistência de diferentes níveis de qualidade, que deixava completamente destituídas todas as famílias desprovidas de renda, os desempregados e os trabalhadores na informalidade. O advento da reforma sanitária teve um percurso bastante longo. Primeiro com a unificação de serviços e financiamento no nível federal e a seguir com a descentralização da gestão para os estados, num sistema universalizado, equânime e organizado por níveis de complexidade.

A instituição do Sistema Único de Saúde foi uma reforma de grande valor político e tratou de por em prática o artigo da constituição que garantia o direito de todas as pessoas à saúde. Antes dele a assistência era provida por grande número de institutos ligados a distintas categorias profissionais que financiavam, mediante pagamento específico obrigatório, uma assistência de diferentes níveis de qualidade, que deixava completamente destituídas todas as famílias desprovidas de renda, os desempregados e os trabalhadores na informalidade. O advento da reforma sanitária teve um percurso bastante longo. Primeiro com a unificação de serviços e financiamento no nível federal e a seguir com a descentralização da gestão para os estados, num sistema universalizado, equânime e organizado por níveis de complexidade.

Exatamente iguais? Sim, porque as reformas sanitárias dos dois países se guiaram pelos mesmos generosos princípios políticos de esquerda, quando o termo ainda soava como promessa de um mundo mais íntegro e justo. A Reforma Italiana foi uma grande inspiração para a brasileira. Muitas das práticas assistenciais instituidas  foram  semelhantes, como os conceitos de porta de entrada – via médico de família, na Itália, e via Unidades Básicas de Saúde com população vinculada, no Brasil-, hierarquização por complexidade para resolução dos problemas, vigilância à saúde (termo reduzido a vigilâncias sanitária e epidemiológica no Brasil) .  Até certo ponto, as reformas foram concomitantes, embora a lei do sistema de saúde da Itália seja de 1978 e a do Brasil de 1988. Mesmo assim, é claro, são duas histórias distintas, plenas de detalhes que as diferenciam. Só para lembrar, nos detalhes moram Deus e o Diabo.

De acordo com estudo da ONU, o serviço sanitário italiano foi o segundo melhor do mundo, ficando atrás apenas da França, conforme os parâmetros de eficiência da despesa e de acesso a tratamento curativo. Assistência à saúde é até hoje uma das poucas políticas de seu país que os italianos respeitam e defendem, apesar de uma consulta com oftalmologista demorar noventa dias e assim por diante.

O Brasil não faria feio num estudo desses e é preciso considerar que gastamos tres a quatro vezes menos por pessoa por ano; que temos uma riqueza quase do mesmo tamanho que a italiana mas com população tres vezes e meia maior; que a distribuição da riqueza na Italia é muito mais equanime que no Brasil e a pobreza extrema é muito menos volumosa.  Será que isso explicaria as diferenças? Penso que sim, embora seja necessário considerar também que temos conseguido ser mais corruptos que a Italia, cobrar mais impostos para sustentar um estado ainda mais perdulário  que o deles e, no geral, praticar uma gestão de qualidade tão sofríve quanto a deles. Ainda assim, os números do SUS, do qual dependem pelo menos cento e cinquenta milhões de brasileiros são de magnitude impressionante, desde a vacinação básica até os transplantes.

Se em dez anos o Brasil quisesse ser igual a Italia deveria triplicar o seu PIB para passar a gastar o que gastam os italianos para cada pessoa. Se não for com crescimento será impossível, uma vez que, nas atuais condições o SUS sofre de subfinanciamento crônico e ninguém aponta de onde deveria sair mais dinheiro sem a criação de mais tributos. Ao fazer a carteira sanitária cada pessoa deveria indicar o médico de família ao qual gostaria de ser vinculada para iniciar qualquer atendimento sempre sob sua orientação como possibilidade quase única; ou via UTIs móveis ou Pronto Socorros em emergências. O sistema hospitalar seria público com possantes hospitais regionais de referência (Jesi, trinta mil habitantes, tem um único hospital maior que o Evangélico de Curitiba e tão resolutivo quanto). Todos seriam atendidos da mesma forma no sistema e a alternativa seria a assistência particular paga. Haveria uma crescente crise de financiamento do sistema porque, como em todo o mundo os custos de saúde sobem muito mais do que quaisquer outros, o uso de tecnologia cara  aumenta quase exponencialmente e a população vive sempre mais e necessita assistência de alto custo por mais tempo. Por outro lado, teríamos a população mais magra do mundo e seríamos livres da endemia do alcoolismo, com rígido controle sobre consumo de tabaco e drogas ilegais. O número de mortes nos transportes seria residual, a poluição nas cidades estaria controlada. O desemprego, o crime organizado e a violência doméstica estariam sob forte combate preventivo e educativo. Isso é o que eles dizem que vão fazer aqui e, quem sabe, aquilo que deveríamos fazer no Brasil.

Tivemos necessidade de usar o sistema aqui. Procuramos o médico de referência que nos encaminhou ao hospital. Fomos num dia e tivemos que voltar no outro. Não era emergência. Esperamos umas horas e fomos atendidos por um especialista. Compramos o remédio na farmácia com desconto mediante uso da carteira sanitária. Houve uma consulta, um exame citológico e uma ecografia de controle em alguns dias e ficou tudo resolvido. Eles aqui  tem orgulho de seu sistema de saúde que é citado como exemplo importante de coisas que funcionam.

O Brasil, com um sistema semelhante, atende a uma população trez vezes maior com o mesmo dinheiro que é gasto aqui. Sem comparar nada com coisa nenhuma e “educados” por políticos e meios de comunicação que vivem de por em evidência a exceção que está errada e não  os incontáveis acertos do dia a dia, os brasileiros ainda estão por descobrir a importância de seu sistema de assistência à saúde e lutar por ele. Um sistema cuja concepção e institucionalização legal  precisou de três dácadas para vingar, com empenho de forças de boa parte do espectro político e com participação da sociedade.

O SUS, que todo mundo gosta de criticar, é o melhor exemplo de construção de política pública que conquista resultados da história do Brasil, e deveria  inspirar todas as ações públicas no nosso país (mas não como farsa como tem acontecido), embora esteja longe de ser perfeito como quiz anunciar um dia Lula, mentindo que se tratava de obra sua.

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