Em Indicatore, perto de Arezzo, na Itália, afluindo de todos os lugares por onde um dia foram dispersos, pequenos retalhos de rocha parecem estar voltando para casa; aconchegando-se uns aos outros pelas mãos de centenas de artistas de todo o mundo na montagem de uma complexa obra cuja missão é contar uma grande história.

 

Um imenso mosaico de imagens, pleno de significados, está a  emergir do arranjo desses fragmentos de pedras. Conduzido pelas mãos de humanistas voluntários, que sabem se apaixonar por obras sementes-de-mudança; por artistas, que acreditam em mundos novos potenciais presentes no espírito da matéria; e que projetando suas vontades na direção dos escuros que pretendem vislumbrar vão revelando o que vai além da aparência da natureza, na aventura da significação da existência.

 

Como disse o poeta: “A arte existe porque a vida não basta”. Somos impulsionados para, além de viver, representar a vida. Não tão somente a experiência, mas a vida reinventada, resignificada, expandida, nas expressões da consciência   simbólica, individual e coletiva. Estamos aqui para tecer narrativas. Seria essa a missão de um dos maiores mosaicos do mundo, que cobrirá toda uma igreja, por dentro e por fora?

 

Uma obra feita com a força e o impulso das mãos, com a energia das pessoas que se espalha como ondas vitais, com o movimento das ideias  capazes de conceber o belo, com a sutileza da alma, do não localizado, das experiências externas ao corpo, substância da criatividade fundamental. E assim o mosaico inteligente se expressa como terra pelos azulejos e pela cola em sua moldadura; como  água pelas nuances que se derramam em os tons variáveis, as sombras insinuantes; como fogo, pelo pensamento criador que precede ao que é criado; como ar, por todas as camadas que concebem e integram a história da vida que temos por missão registrar.

 

Na mata densa inexplorada penetram primeiro os visionários que nunca duvidam das possibilidades dos caminhos novos, que os enxergam muito antes deles existirem, mesmo que tenham de abrir picadas com as mãos. A arte espia o futuro pelas rachaduras de paredes espessas, pelas frestas por onde todos poderiam vislumbrar o inexistente, mas só uns poucos ousam espiar. A arte vê primeiro e abre picadas a unhas e facão. A vida vem atrás seguindo seus atalhos.   Após os seus vislumbres já não existem outros caminhos possíveis, mesmo que os por ela narrados não  pareçam razoáveis.

 

Como em tantos outros lugares do mundo, em Indicatore, de mãos à obra estão os narradores, de tão diferentes vozes, cantando a mesma canção, lambendo suas feridas.  Entre elas, talvez, a saudade de um paraíso perdido, cuja esperança a beleza reacende. Como disse Kandinski:  “a transcendência não tem outro significado a não ser o de mostrar ou pressentir algo que não está aqui”. Como expressá-lo? Pergunte aos mosaicistas e voluntários da Chiesa del Spirito Santo, Indicatore. Sinta as lambidas que dão. Quem sabe você saia por aí com vontade de lamber também.

 

*Andreina Carpenito, é a artista que concebeu a obra e lidera os voluntários em sua execução, sob os auspicios do Pe. Santi, o Pároco local que acolheu o projeto. O trabalho já dura mais de vinte anos.

 

Homero Giacomini

Ravena 2017

 

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