Eram tempos que de barões o mundo estava cheio, fosse por título herdado ou merecidamente conquistado. Esse era o caso de um que prestava digno serviço aos moradores da Curitiba do início do século passado, quando ela era uma cidade malcheirosa por conta das excretas canalizadas para fossas sem preparo por suas gentes sem esgoto. O homem começou como Castelhano, e desenvolveu um carroção com tração animal (dois simpáticos burricos gêmeos),  sobre ele fixou uma grande barrica à qual interligou robusta mangueira e entre barrica e mangueira conectou uma bomba de sucção que funcionava com tração humana. Era o negócio que tinha inventado. Assim, sempre que uma das tais fossas transbordavam, o que era bem frequente e produzia um fedor incompatível com a sobrevivência de seres sencientes, o homem era chamado para sugá-la, num trabalho repugnante porém nobre. E os fregueses, que pela frente o chamavam de Seu Castelhano, pelas costas a ele se referiam como Chico Bosta, e o urgente brado “Chama o Chico Bosta!” foi se tornando mais e mais frequente. O Chico  já não dava conta dos pedidos todos. Trabalhava até que a luz do sol permitia para evitar fazer merda no escuro; acelerava o bombeamento quanto podia, mas ao final de umas quatro barricadas, já não tinha força nos braços. Diante de tanto sucesso e necessidade aperfeiçoou o seu modo de produção: contratou ajudantes; descarregava barricas vazias em várias beiras de fossas e passava mais tarde recolhendo-as com o produto da sucção; e quase matou os gêmeos de tanto trabalhar. Diante da prosperidade decidiu reforçar, através da imagem da equipe,  a dignidade que seu negócio já tinha. Comprou um fraque preto completo, uma camisa de musseline branca com babados e lenços de seda pura coloridos que usava a modo de corbatas. Para seus ajudantes trajes também pretos, mas reduzidos a colete e camisa de algodão sem babados. Imediatamente, quando ao fim do dia se encaminhavam ao rio para derramar o que tinham sugado, o Chico conduzindo o carroção e os ajudantes em pé sobre ele segurando as barricas, apesar do cansaço dos gêmeos, faziam uma bela figura, e sua promoção à nobreza foi coisa natural. Por qualquer lugar que passassem, todos comentavam: “Lá  vai o Barão da Merda e seus Bosteiros”.

 

*Releitura de uma história sobre um personagem curitibano do passado contada por Valério Hoerner Júnior em seu livro “Ruas e Histórias de Curitiba”.

 

Autoria de Homero Giacomini

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