Os italianos costumam repetir que l’Italia tutta è bella. Eu penso que eles tem razão. Sempre dizemos que aqui “cada enxadada é uma minhoca”, ou várias. A todos os lugares que vamos, muitas vezes por acaso, encontramos a tal bellezza, em construções, sitios arqueológicos, obras de arte. Ao ponto de, em certos dias, nos sentirmos intoxicados de patrimônio histórico-cultural. Mas há também o sentimento, às vezes emoção, ligado a coisas simples que nos chamam a atenção.

 

Alguns exemplos.

 

  1. Teria muita história para contar de gato malandro por aqui. Mas penso que o representante de todos pode ser um gato grande, gordo, preto e branco, que num domingo pela manhã em Spoleto, na nave principal da catedral, deitado de patas para o ar monopolizava a atenção, os carinhos e as fotografias de um grande número de turistas, tumultuando a ordem santa das coisas. Uma freira toda de branco tentava atrai-lo para que deixasse o lugar, mas ele, no máximo deslocava-se alguns metros para longe dela e, novamente, se punha a disposição dos seus fãs. Depois, como quem sabe que não deve abusar, saiu rebolando devagarzinho da magistral igreja, seguido por todas as crianças que estavam lá, e no pátio virou-se outra vez de barriga para cima à espera dos afagos. À sua frente a imensa praça onde é montada a platéia para os espetáculos principais do Festival dei Due Mondi.

 

  1. À nossa direita, no andar de baixo aqui do prédio, mora uma viralatinha marrom de pelo curto, magra como o dono, um jovem italiano jovial e sociável que pela magreza podia se chamar “Spaghetti” (plagiando um apelido do velho  amigo Arnaldo). Ele foi a primeira pessoa do prédio com quem falei, e a embaixadora desse contato foi a cachorrinha que gostou de mim e veio já no primeiro contato pulando e se fresqueando para ganhar carinho. Quando a encontro no passeio diário com o dono tudo se repete e a conversa é sempre sobre ela. Mas quando estou na nossa sacada no andar de cima e brinco com ela, foge de imediato e fica espiando desconfiada pela fresta da porta. Talvez ela perca as referências e deixe de entender nossa amizade, ou então apenas aja como seus conterrâneos humanos que fecham suas janelas quando abrimos as nossas, ou entram porta a dentro quando saimos para fora (os vizinhos da frente demoraram uns tres meses para nos dar uma oportunidade de cumprimentá-los). Mas isso não significa nada, além de resguardo de privacidade que brasileiros parecem não prezar muito; e para quebrar o gelo resta sempre a oportunidade de falar primeiro com os cãezinhos, coisa que os reservados italianos apreciam.

 

  1. A primeira vez que estivemos em Fonzaso, no Veneto, terra do meu nonno, na chegada nos dirigimos a um posto de gasolina. Os amigos brasileiros, que falavam italiano, interagiram com a Norma, uma frentista simpática: “Siamo brasiliani. O nonno daquele ali era aqui de Fonzaso”. E a Norma, olhando para mim, disse sem titubear: “E pela cara, Giacomin, com certeza.” Ou seja, bicho ruim deve ter a mesma cara entra século, sai século.

 

  1. Nosso primeiro contato com neve caindo foi em Belluno. Pela janela do restaurante controlávamos preocupados a neve que ia se acumulando no chão, já que dirigir o carro em seguida, para voltar para o hotel, seria uma novidade. Caiu uns cinco centímetros e retornamos tranquilos. Nas primeiras horas da manhã seguinte acordei com um barulho fora do quarto do hotel (todos os quartos tinham entradas independentes que se abriam diretamente nas calçadas externas) e pela janela fui ver o que era. Vi um tapete branco de trinta centimetros que cobria tudo, campos, telhados e calçadas, estas sulcadas por carreiros para permitir  aos hóspedes acesso às áreas comuns do hotel. Feitas por quem? Por quem produzia os barulhos, um jovem grandalhão, de provável origem eslava, vestido com uma malheta leve com as mangas arregaçadas, que tinha feito  com uma pá larga aquelas centenas de metros de sulcos na neve e que agora tirava de um saco com as mãos sem luvas grandes punhados de sal que espalhava pelos carreiros para que não congelassem tornando-se escorregadios e intransitáveis. Sinceramente, como a neve, um fenômeno da natureza! Saí e conversei com ele. Faz esse serviço há muitos anos. Adora a neve, mesmo em Belluno, onde ela costuma cair por tempo bem maior do que os poucos dias que levaram o argentino que se mudou para o Canadá a sonhar com seu retorno aos pagos quentes do norte de seu país,  bradando imprecações contra “la mierda blanca” que nunca parava de cair. Voltei para a cama e, logo depois, para evitar problemas com excessos de “mierda blanca”, antecipamos nosso retorno para o sul.

 

  1. Para lembrar de tudo num mundo diferente (outro país, outra língua, outra cultura) e evitar problemas, um casal de mais de sessenta anos precisaria ligar as memórias em série. Em Pavia esquecemos, numa mesa externa do bar junto ao posto de locação de bicicletas, a mochila com documentos, cartões de crédito, dinheiro. Voltamos esbaforidos e estava tudo lá, guardadinha. Meu celular ficou numa pizzaria, o da Marisa numa loja, uma sacola de coisas recém compradas num banco da ferroviária, o cartão de crédito em outra loja, as malas na saída de um hotel em Brescia, o óculos no carro alugado, a boina no restaurante em Parma, uma mala dentro do furgão alugado (voltou para o Brasil). Tudo foi devolvido certinho e ao oferecer gorjetas, como bons brasileiros, espantamos as pessoas envolvidas: “Eu não fiz nada. Apenas guardei um objeto esquecido por vocês.” Uma verdadeira sequência de italianos- Mas tudo tem exceção. Em Roma a Marisa esqueceu o celular sobre uma mureta na rua; nunca mais encontrou. Em algum balcão de aeroporto, na viagem para a Italia, esqueci uma pasta com dezenas-de-certidões-de-inteiro-teor-traduzidas-por-juramentado-devidamente-apostiladas-para-pleitear-a-cidadania-italiana. Para consegui-las tive um enorme trabalho e uma grande despesa. Nunca recebi qualquer contato a respeito desses documentos que só a mim poderiam interessar. Não os farei novamente porque tanto trabalho e dinheiro nem a cidadania javanesa valeria. Por conseguinte, jamais serei cidadão italiano, o que comprova que Deus, se não for brasileiro, pelo menos é amigo meu, e não deseja me ver acrescentar aos dissabores pelo Brasil outros tantos pela Italia. É nisso que deve consistir esse regalo.

 

  1. Italianos são muito na deles. Mas pare algum para pedir informações e terá uma aula de gentileza, sobretudo se tiverem mais do que meia idade. Se for um casal o homem tomará a dianteira na falação (afinal a arte da orientação é coisa masculina desde antes do paleolítico), mas ela fará acréscimos, amiúde divergentes. Quase todos dirão algo como eu mostro para vocês, e seguirão em alguma direção. Vocês, obviamente, seguirão atrás, sem chance de dizer que não seria necessário, por um trajeto que, em geral, não passará do canto do prédio, ou da próxima curva ou esquina. É provável que lhes informem não só sobre o caminho que devem tomar, mas também das desvantagens dos que não devem. Quando julgarem ter entendido, quase sempre as informações serão repetidas em versões diferentes das anteriores, com crescente riqueza de detalhes que vão confundi-los. Não dêem muita importância a isso, afinal a Italia é cheia de labirintos e vocês por certo entrarão em vários deles. Se souberem manter a calma poderão perguntar novamente e refazer a oportunidade de experimentar a gentil verve gesticulada italiana.

 

  1. Em Torino saimos para procurar um restaurante. Logo ao lado do hotel observamos que um pelotão de carabinieri ia entrando num deles. Moças e rapazes, muito elegantes em seus uniformes impecáveis, provavelmente faziam algum treinamento na academia de polícia daquela grande cidade. Disse à Marisa: ”Vamos seguir os carabinieri, pois com certeza eles sabem o que fazem.” O restaurante devia ser tão bom que cedo, naquele dia comum, não havia mais lugares. Dia seguinte, mesmo horário, estávamos nós procurando um restaurante quando ao virar uma esquina os avistamos. Lá iam eles, pelotão tomando toda a largura da calçada, elegantes, passos rápidos, rumo determinado. Sem titubear passamos a segui-los, tinhamos quase certeza de que iam para um restaurante…e sabiam o que estavam fazendo. Nesse dia tinha vaga e comemos muito bem, com atendimento excelente e preço ótimo.  Conclusão: se estiver na Italia procurando um restaurante siga os carabinieri!

 

 

 

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