1.O corpo de São Francisco (que morreu no século XIII) só foi encontrado em 1.800, escondido num túnel sob a basílica a ele dedicada em Assisi. Dizem que foi escondido para evitar que fosse roubado. No local havia moedas de prata da época (possivelmente para identificar o ano do sepultamento) e uma pedra sobre a qual a cabeça de Francisco havia sido deposta. Estive na sua tumba, atualmente na cripta da basílica perto do local onde o corpo foi encontrado. Estive também no túmulo de João XXIII, na basílica de São Pedro. Em 2001, o corpo do Papa João XXIII foi tranferido das criptas do Vaticano para o interior da basílica. Era muito visitado e causava congestionamento nos subterrâneos. Estava intacto trinta e oito anos após o funeral. Nesses dois locais, relacionados aos religiosos aos quais dedico a minha maior admiração, senti uma grande emoção ao pensar na vida humilde desses homens revolucionários e na obra eterna que realizaram,  sob o mesmo teto de consagrados monstros.

 2.Airton Senna morreu em Imola no autódromo Enzo Ferrari. Na entrada do autódromo, incrustrado num grande parque, à direita, começa a trilha que leva seu nome. Entramos por ela e após algumas centenas de metros de caminhada lá estava ele, sentado sobre um cubo alto de bronze, pernas cruzadas, mãos no colo, cabeça baixa e rosto triste como costumava ter. Alguém cobrira seus ombros com uma bandeira do Brasil e pusera uma rosa vermelha entre seus dedos. Às suas costas o bosque, folhagens e flores. Ele está de frente para a curva do Tamburello, local exato do acidente. Parece refletir: talvez sobre a morte precoce, ele que disse uma vez que chegaria, pelo menos, aos sessenta -, numa semana fatídica em que outro companheiro morrera naquela pista e Rubinho sofrera um acidente grave; talvez sobre o significado daquele alambrado repleto de camisetas e bandeiras de muitos países, renovadas tanto tempo depois. E tudo sob o ronco  de um esquadrão de  Ferraris que passavam voando sobre a mesma pista. Era domingo, dia de corrida.

3.Nicola Di Bari, um dos mestres da canção italiana, tem uma que se chama La Prima Cosa Bella,  com um verso que diz assim: I prati sono in fiori, profume anche tu (“Os campos estão floridos, perfumam também você”, numa tradução simples). Se você já teve a sorte de andar pela zona rural da Italia na primavera (“ou em qualquer das estações”) sabe do que estou falando. A vegetação silvestre em plena exuberância mistura-se com as plantações que começam a florescer, os perfumes estão por toda a parte, é a estação da beleza alegre. Os campos floridos perfumados alegres, alegram a qualquer um. Aaaah! O verde dos trigais recém plantados, o dourado dos trigais recé-colhidos, as flores misturadas às plantações de lentilhas, os campos amarelos dos disciplinados girassóis. Tá ai uma das grandes saudades que vamos sentir.  “Amici per sempre”.

4.A senhora sabe o que é uma Contrada? Assim respondeu o senhor do restaurante quando a Marisa lhe perguntou se sabia onde ficava a Contrada dei Marini, na Comune de Gaglio, no Veneto. Visitávamos os lugares dos antepassados. Nitidamente, percebemos depois, sua preocupação era a de que ela não se decepcionasse ao se deparar com apenas  um pequeno agrupamento de casas antigas. Mas ele explicou e lá  fomos nós. E encontramos a placa dos Marini e as poucas casas. As mais antigas, de pedra, talvez dos bisnonnos italianos. Mas havia por lá muito mais: as montanhas espetaculares cercando tudo; a pequena Zaibenna, uma vilinha perto do céu onde, antes da Contrada, o pai do nonno nasceu; a calorífica polenta com carne de porco, feijões e cogumelos (in Italia si mangia bene!), que o senhor do restaurante anunciava como um prato alpino; Gaglio com seus enormes gramados que com neve viram campos de esporte de inverso; as placas de acrílico na praça, que homenageiam os que, dispersos, voltaram para reconstruir a cidade após sua completa destruição na primeira  guerra, entre eles os Marinis; a igreginha com a homenagem aos mortos de guerra do lugar, um deles o soldado Angelo Marini (quem seria?). Por tudo isso, nada melhor que a prece que a Marisa fez na igrejinha, garantindo todo o perdão pelos possíveis desconhecidos deslizes de algum antepassado (quem não os teria?), mas, sobretudo, manifestando profunda e eterna gratidão pela vida transmitida, pelos sonhos sonhados, pelo árduo trabalho a ultrapassar séculos, pelos sofrimentos e alegrias…Enfim tudo. Tudo que a trouxe até aqui possibilitando que ela fosse o que é.

5.Digo que dos tempos de pediatra guardo no coração as lições dos mestres, amizades e uma grande saudade das crianças. Na Europa em geral a interação de crianças com adultos desconhecidos não é bem vista pelos pais e parentes; fruto da disseminação da tara pedófila, que fez de um comportamento natural, a aproximação benevolente e protetora à filhotes, uma manifestação de afeto vetada entre humanos (no Brasil, ao do abuso sexual, deve-se somar o medo dos sequestros e outros mais). Um dia, caminhando por Spello, fui surpreendido por um pai jovem que sem qualquer explicação me deu para segurar seu bebê de uns dez meses enquanto  desdobrava o carrinho para levá-lo para a creche. O carinha, sem qualquer receio, passou para o meu colo, e brincamos e trocamos afetos por alguns segundos. Depois o pai agradeceu, pôs ele no carrinho e foi embora ladeira abaixo. Muito obrigado pela confiança pai estranho. Muito obrigado pelo carinho bebezinho de Spello, que foi o único que eu pude abraçar por aqui.

6.Quando a visitei, a única coisa que me pareceu extravagante, como componente do quintal de uma casa, foram as instalaçõe daquela mistura de clube de hipismo com haras de luxo que chegou a abrigar uma competição internacional que começou como simples divertimento a partir de uma das grandes paixões de nosso personagem. No restante o que se vê é exuberância sem exageros: de uma cozinha ricamente equipada como reflexo da italianidade amante da culinária e das consequentes grandes e constantes reuniões de amigos em torno da mesa; do enorme vaso sanitário, condizente com o tamanhão de quem habitava a casa, a conviver no banheiro com uma balança profissional para alguém que lutava contra o peso; do imenso mesanino que abriga uma enorme quantidade de prêmios e troféus e que, pelo teto em clarabóia, deixa entrar em abundância a paixão do dono da casa, o sol, que tanto brilho parece a ele ter emprestado; do traje para as noites de gala dos memoráveis shows, cujo fraque se mostra como o continente de uma poderosa caixa torácica feita para acionar as cordas de uma poderosa divina voz; da emoção de contemplar a cama enorme onde morreu cercado por seus familiares; da mesa da sala de homenagens cheia de cartas que os visitantes escrevem para seu ídolo, às quais acrescentei a minha:

“Querido Luciano.

Obrigado pelo corpanzil.

Obrigado pela vida de estudos e exercícios para discipliná-lo como homo musical.

Obrigado pelo exemplo do cultivo da família e das amizades.

Obrigado pela alegria das camisonas supercoloridas.

Obrigado pela sala de brinquedos de sua filha, onde agora pode brincar qualquer  criança.

Obrigado pela exposição da intimidade da sua vida nessa casa tão potente quanto singela.

Obrigado Luciano por soltar a Voz!”

 

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4 Comentários

  1. Apenas verti umas lágrimas por esta página de despedida. Apenas mais uma etapa de vossas vidas tão maravilhosas, meus amigos, pois, como nos ensino o Buda, tudo é transitório. Isso é que alegra os seres humanos infelizes e apavora os felizes. Na gangorra da vida temos um exemplo dialético: o transitório e o permanente.