Ouvi alguém dizer que a Italia detém mais de cinquenta por cento de todo o patrimônio artístico e histórico da humanidade. Penso que deve ter também a metade dos santos da Igreja Católica. São inúmeras as cidades que tem um santo para chamar de seu. Estive em algumas delas Assisi (Francisco), Cascia (Rita), Certaldo (Julia), Isola di Gran Sasso (Gabrielle). Há casos com mais de um, Gubbio, por exemplo (Bento e Ubaldo). E deve ter com mais que isso. Em algumas situações ocorrem disputas. Uma igreja dedicada a  Santo Antonio, na Alfama em Lisboa, sustenta que o santo está sepultado ali (Santo Antonio de Lisboa). E está lá a sua tumba, à entrada, no lado esquerdo, acompanhada de dizeres mais ou menos assim: Aqui repousa Santo Antonio, O Jovem. Ah bom, está explicado, porque todo mundo sabe que os restos mortais do santo em questão estão em Padua, na Italia (Santo Antonio de Padua). Penso que na tumba italiana estaria alguma coisa como Santo Antonio, O Velho. Valeria a pena conferir.

A pequena cidade de Corinaldo, em Marche, faz parte do time onde nasceram santos. É a cidade natal de Santa Maria Goretti. Ela, com 12 anos de idade, foi assassinada dentro da sua casa, após uma tentativa de estupro por um dos filhos de uma família vizinha, com a qual a sua mantinha grande proximidade. O fato ocorreu em 1910, e venerada pela população campesina local ela foi transformada na protetora das vítimas de estupro. Alessandro Serenelli, o assassino, era filho de alcólatra e parente de várias pessoas com distúrbios mentais. Uma gente de pouca serenidade, o que acentua a ironia do nome que carregava. Ficou 27 anos na cadeia e saiu por bom comportamento. No cárcere, sonhou por muitos anos com o perdão da família de Maria Goretti e, liberto, procurou a mãe Assunta que de fato lhe concedeu o perdão.

E tudo isso nos leva ao Santuário dedicado a Maria Goretti, na parte mais alta da bela cidade murada de Corinaldo. Ao entrar chama logo a atenção um corpo numa urna de vidro sob o altar com o braço direito erguido para o céu. Fui direto até lá pensando encontrar a santa, mas não, apenas uma estátua de madeira na posição em que ela foi morta, e seu braço direito. Sim, um braço da santa! Uma relíquia como são chamadas.

A propósito, parece que os santos quando não foram esfolados no martírio, devem ter sido esquartejados pela própria irmandade para garantir que muitas igrejas, palácios e museus pudessem ter um pedaço deles. Em Dubrovnick, na Croácia, numa basílica dedicada ao simpaticíssimo São Nicolau, vi uma sala forte repleta de braços, pernas, órgãos, dentes de santos, em caixinhas e couraças metálicas cravejadas de muitas coisas; um espetáculo bizarro que impeliria muitos a distanciarem-se de quaisquer ideias que um daqueles pudesse representar (lembro de ter visto uma muçulmana olhando aquilo com grande estranhamento); e também tesouro inestimável em ouro e pedras preciosas.

Mas voltando à nossa história, lá no altar está Maria Goretti. Sepultada na entrada, à esquerda, a Mamma Assunta, mãe da santa, e no  lado oposto da cave, exatamente em frente à Mamma, está sepultado o assassino. Na lápide de cada um há uma foto e, eu juro, eles estão olhando nos olhos um do outro. A lápide da Mamma fala de misericórdia, a de Alessandro Serenelli em conversão. A Mamma tem o perdão estampado no olhar, Serenelli o arrependimento. Nessas condições, os dois parecem conviver muito bem e um curioso como eu, poderia, se quisesse, ficar pensando que tal quadro, que parece ter saido da Comédia de Dante, tem alguma coisa a dizer sobre tolerância e fraternidade ao atual mundo sombrio viscejante por tantos lugares.

Para o bem ou para o mal a história dos homens (e mulheres, obviamente) reserva-lhes duas possíveis sínteses: morrer pelo que são, como Goretti, ou transformar-se em outro,  como Serenelli. Humana mesmo a possibilidade do reencontro, mesmo que sobre cicatrizes de violências inomináveis.

Santa Maria Goretti é também o nome da paróquia da minha “circunscrição” em Curitiba e, um curioso como eu, poderia, se quisesse, ficar pensando que, talvez, isso queira dizer alguma coisa. Será? E o que seria? Acho que nada.

 

 

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4 Comentários

  1. Homero, tuas crônicas estão cada vez melhores.
    Acho que a Itália fomenta cada vez mais seu olhar crítico e seu espírito de escritor.
    Bevi molto vino, che te fai tanto bene! Auguri!