São Francisco andou por muitos lugares (esteve aqui em Jesi onde moramos, inclusive,  história que fica para outra ocasião), mas seus passos se concentraram sobretudo num caminho que tendo ao centro sua cidade natal de Assisi, na Umbria, alcançava Roma, no Lazio ao sul, e o Santuário della Verna, na Toscana, ao norte, num percurso de 300 quilômetros. Nesse itinerário se encontram coisas maravilhosas ligadas à vida de Francisco: a casa onde nasceu, o lugar onde montou o primeiro presépio, a sua sepultura, o retiro onde ia com seus seguidores para meditar, a igreja onde consagrou Clara. Uma vida mística, bonita, pacífica, mística e revolucionária, cujo conhecimento só faz aumentar seu prestigio como fonte de inspiração.

 

No trajeto da Via de San Francesco se encontra a cidade de Gubbio, na Umbria. Sua  história se fez da sucessão da antiga civilização umbra, do império romano e de múltiplas  invasões e mudanças de domínio durante a idade média. É fantástica.           A história de São Francisco é muito ligada a Gubbio, e um dos episódios mais conhecidos é o do encontro do santo com o lobo. Discute-se no mundo todo se a história seria verdadeira. Teria mesmo acontecido? O tal lobo seria um lobo ou uma metáfora para um bandido que Francisco teria reconciliado com a cidade? Era lobo ou era loba? A maior inclinação é por considerar a história do lobo como verdadeira. Mas, do meu ponto de vista, acho que o bicho era, de fato, uma loba. O lobo era uma loba. Porque após ter sido acalmada e ter fechado a bocarra sedenta de sangue, teria adotado um comportamento de cordeirinho e e se atirado aos pés de São Francisco brincando, coisa que, para prejuizo próprio, é raro  macho fazer. Segundo, porque Francisco tinha atração pelo sexo feminino, e já  me explico: pelo ethos feminino, pelas qualidades da alma feminina, pelo jeito feminino de tratar a alteridade; ou pelo menos por aquilo que já se ousou dizer que seria o tal jeito, porque hoje em dia já tem gente que duvida, dizendo que as mulheres viraram homens. Mas Francisco, cuidava. Cuidava dos mais famintos, dos mais sós, dos mais doentes. Nunca ouviria falar de aquecimento global, mas cuidava simplesmente, de todos os outros, seus irmãos e irmãs. Não seria essa a maneira de ser da tal alma feminina?

 

Em Santa Maria degli Angeli, junto a Assisi, há uma pequena igreja chamada Porcíuncula, atualmente abrigada no interior de uma gigantesca catedral construída para protegê-la. É o lugar mais importante da história de São Francisco, foi lá que ele morreu. Já o lugar onde ele nasceu, não muito longe dali, é tratado com muito menos importância. Nada a estranhar. Para fazer caminho, a família onde se nasce é um lugar a ser deixado para trás, por homens e mulheres. Ou alguém duvida que se tivesse ficado na casa de seu pai comerciante rico e próspero ele não teria feito as “loucuras” que fez? Bem, mas na Porciúcula, dizem que Francisco costumava pegar na mão uma cigarra de uma figueira ao lado e que, juntos, os dois cantavam por longo tempo para louvar a Deus,  até o dia em que o santo despediu-se da irmã cigarra que os havia alegrado tanto para que ela seguisse seu caminho, como sua mãe devota defendera para ele próprio. Com a permissão de Francisco a cigarra livre foi embora e não voltou mais. Coisa de almas femininas? Talvez sim…ou não.  Alguém poderia dizer que, comumente, uma alma masculina procederia de modo a escravizar a cigarra  e exibi-la num circo mambembe atrás de grana.

 

Almas femininas e masculinas podem ser uma grande bobagem inventada, mas em almas de franciscos e claras acredito que vale a pena confiar mais, sejam homens ou mulheres.

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