Não tenho muito o que fazer, porisso acho boa a ideia de gastar tempo comparando a evolução da vida com a história de um povo. Qualquer povo, uma aldeia africana, uma periferia brasileira, uma cidade dos Andes,  e qualquer vida que talvez, metaforicamente, pudesse perceber coisas interessantes em tal exercício. A minha motivação é forte, porque a comparação de agora me é instigada pela observação de fragmentos esparsos de trinta séculos da história da Itália, onde tenho a sorte de estar (só por um tempo).

 

Seriam tantas as possíveis metáforas. Mas aqui, me ocorre alguma coisa mais rock and roll, porque entre a  incrível diversidade de motivações e fatos na história tão longa deste país, gosto de dar destaque à construção de estruturas de pedra, mais ou menos  monumentais, depois transformadas e reformadas e destruídas e substituídas e reutilizadas pedra por pedra e reconstruídas, no mesmo ou em outros lugares, próximos ou distantes, em poucos anos ou durante muitos séculos. O Coliseo foi construído sobre um palácio de Nero e seus blocos de mármore travertino foram saqueados para a construção da Basílica de São Pedro e do palácio de Calígulla. A Rocca Brancaleone, fortaleza veneziana no domínio sobre Ravenna, foi espoliada após perder suas finalidades defensivas, para a construção de igrejas e casas populares. A casa de Jesus, Maria e José na Palestina, teria sido transportada tijolo a tijolo pelos cruzados e plantada dentro da Basílica da Santa Casa de Loretto, em Marche. O traçado do caminho sagrado dos antigos Umbrios nas montanhas de Gubbio foi transformado em aqueduto pelos senhores medievais. Claro, nunca foi assim tão simples, porisso mesmo a metáfora parece ser boa.

 

Em Spoleto (a antiga Spoletium romana), encontrei um bom exemplo da complexidade dessas transformações no tempo: uma metáfora rock and roll para a minha vida, embora esta  seja bem mais simples.

 

Um teatro romano foi construído em Spoleto no primeiro século a.C. sob o Imperador Augusto,

 

Sempre os teatros, como inegáveis indícios de que aqui estariamos para, além de viver, sobretudo, representar o vivido. Como já foi dito pelos poetas e filósofos, somos seres que contam histórias para examinar a vida, pois a vida não examinada não vale a pena ser vivida. Começamos num mundo de trevas e medo, e ainda mora em nós o terror que nos tomava ao ver o sol desaparecer no horizonte, sem que soubéssemos porque ia embora e se retornaria para outra vez aquecer e iluminar, possibilitando a continuidade da existência. Assim, tateantes, entre o terror e a premência em decifrá-lo, estamos no mundo montando espetáculos, na esperança de dizer alguma coisa que faça sentido.

 

e permaneceu em uso até o final do século IV, passando por transformações e restauros,

 

Andar pelo mundo, pessoalmente ou pelas pernas dos antepassados, abrindo estradas como Roma ou picadas como o Nonno, vivendo e contando para dar significado e encontrar sentido; tantas e tantas vezes inconscientes de que o texto mais radical que cada um pode escrever é o enredo da sua própria vida, em versão única, sem oportunidade de correções, sem ensaios antes da estréia, mas pleno de prováveis  transformações e possíveis restauros.

 

inclusive por conta de terremotos.

 

                Dramas pessoais e coletivos sempre inundam a vida, inevitavelmente, e há quem diga que felicidades só são possíveis porque os sofrimentos, seus contrários, é que as fazem constituir-se.  Mas, os grandes terremotos do mundo dos homens são, quase sempre, subprodutos de motivações insensatas e ambições tiranas,  que se alimentam do sacrifício do amor, do sofrimento e da escravidão de corpos e almas, ou da morte da liberdade na resistência a tais agressões. Sou dos que acreditam que todos os personagens da vida teremos  direito ao exame da comédia e da tragédia de cada qual. Mesmo os mais crostosos incompetentes existenciais, os mais requintado astros da inconsciencia e impunidade, serão, ao menos por um instante, premidos ao direito de examinar, em solidão, o que viveram, o amor que foram, os terremotos que ajudaram a parir.

 

Durante o Alto Medioevo sobre o palco foi construída a igreja de Santa Ágata

 

Quando em meu coração quiz aflorar aquilo que, pretensamente, seria a virtude, até mesmo disso só fui capaz de ser vaidoso.  A minha natureza prevaleceu     e me movi, autômato, erguendo o que seriam para mim novos castelos, sem perceber que eram os mesmos os lugares, os blocos de mármore, a espessura das paredes e os ferrolhos dos portões. E habitante desses meus castelos gelados restou-me mirar  esperançoso, através do alabastro das janelas de seus claustros, os raios do sol que retorna todas as manhãs apesar das incertezas que jamais acabam.

 

 e o Palácio da Família Corvi.

 

E fizemos  do ouro e do poder os  constantes estéreis aliados contra nossos medos,  depositando neles fé inabalável de libertação, não obstante o sangue derramado e a escravidão, presentes, sob nossos olhos, nos palcos de todas as suas contraditórias narrativas.

 

Em 1.320 o corredor do teatro foi usado como cárcere e ali foram executados guelfi (adeptos do Papa na luta pela coroa imperial).

 

                Eu não sei qual a linha que separa a virtude da imoralidade, mas penso que seja tênue, e concordo com o poeta quando constata “que o que dá pra rir dá pra chorar”. Acho que a questão existencial substantiva não permite que possamos imaginar que temos opção de estar neste ou naquele lado. Há um lado que é um lado só! Sejam quem forem os Guelfi e Guibelini (adeptos do Rei na luta pela coroa imperial), estão do lado único da dor de existir, da dor de saber que morrerão, da dor de jamais poderem trazer de volta os amores que partiram. Como diria o Pequeno Príncipe: não se trata de olhar um para o outro, mas ambos na mesma direção. Seriam os meus olhares dispersos, tentativas de aplacar a dor,  que me fazem andar por aí como Guelfo a encarcerar Guibelino, ou Guibelino a executar Guelfo?

 

Em 1.395 no Palácio Corvi  se instalaram monjas Beneditinas  e a parte subterrânea do teatro foi transformada na clausura do monastério.

 

                Parece pouco, mas dizem que  a minha verdadeira força está na minha capacidade de reencontrar a clausura à qual pertenço,  e exercer o direito de retornar à minha cela, só ela, vaga promessa de paz e bem.

 

Em 1.870, o complexo foi transformado em cárcere feminino e assim permaneceu até 1954.

 

Cela onde, é inegável, também poderei sempre reencontrar-me também com meus rancores e ressentimentos, minhas vaidades e desejos, meus impossíveis sonhos de imortalidade.

 

De 1954 a 1960 o teatro retornou à luz com escavações arqueológicas sistemáticas, sendo descobertos inclusive um retrato de Augusto e outro que, talvez, seja de Cesar, que decoravam o palco.

 

Atualmente, no verão, durante o grande e famoso  “Festival dei Due Mundi”, o teatro retoma suas funções originais e grandes espetáculos são apresentados.

Ave Augusto, Ave talvez Cesar!

 

 

*Sinto muito se a vida é assim.

 

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8 Comentários

  1. Muito belo texto, caro amigo….. Parabéns pela sensibilidade e lucidez pensante….. E, sim, o peso de séculos de história nos torna pequenos e nos leva a pensar pensar pensar………….