O mar propriamente dito foi coautor da fibra veneziana desde os tempos que os endinheirados do entorno acessavam a ilha apenas para caçar, mas, sutilmente, já eram por ela  enfeitiçados para o destino de comerciantes navegadores, de riqueza e poder  extraordinários, ombreados às grandes cidades-estado que, em grande medida, fizeram a glória e a bellezza da Italia; o mesmo mar que, com sua lenta e perene reivindicação do que sempre lhe pertenceu, desafia os usurpadores de todos os tempos com a ameaça de inundar a “Serenissima”, só lhes deixando como opção a teimosia de ser mais persistentes que as ondas, no contínuo desenvolvimento de seus mirabolantes e caríssimos projetos para conter as águas; o mar que os constrange com indiscretas brigas de trânsito entre exímios barqueiros conterrâneos (que agora começam a ser gondoleiros importados falsos), face à equação impossível de conservar todo seu tesouro arquitetônico e, ao mesmo tempo aumentar, indefinidamente, o número de embarcações nos mesmos metros de comprimento e largura dos seculares canais engarrafados; mar cujo, às vezes, descontrolado odor os expõem à maledicência de invejosos de todo mundo, que sem competência para analisar um teco de suas complexidades circulatórias de naturezas diversas, o  chamam de fedor insuportável.

 

O mar de bellezza, história, arquitetura, artes, faz lembrar aquele engano da âncora que se joga para alguém que está a se afogar, como de resto ocorre em toda a Itália: embarcação entregue a águas revoltas fortemente ancorada  na história, que faz ranger o casco nacional perigosamente próximo da ruptura, e causa enjôos nos que, à bordo, responsabilizam as insensíveis ondas oceanicas por seus desconfortos, sem jamais cogitarem das possíveis vantagens de um barco que flutue livre para enfrentar tempestades em alto mar.  Veneza foi a primeira que fez água por conta do abraço inevitável e incondicional à âncora da bellezza. Habitada por “senhoras” de todo o mundo, maquiadas, penteadas e bem vestidas todas as horas de todos os dias, é um shopping-restaurante-dormitório de turistas, toda ela um imenso centro histórico, um museu onde não se encontra olhos inchados, cabelos revoltos, pijamas manchados, e onde, portanto, também não se encontra vida comum. Uma das cidades mais originais do mundo transformada em museu sem vida: se fechasse às segundas ninguém sentiria falta. Voltariam qualquer outro dia, a comeriam com os olhos, bocas e bolsos e iriam embora. pelos mesmos caminhos que usam para deixá-la os venezianos que, sentindo tanto, a perderam irremediavelmente.

 

Na ilha de Veneza, não circula nenhum veículo motorizado e as entregas de mercadorias são feitas em carrinhos estreitos e compridos: numa das pontas jovens ragazzi esguios e ágeis que gritam Attenzione! Todo tempo querendo criar algum espaço para avançar com suas mercadorias em meio aos turistas. Talvez coubesse boa ampliar o conteúdo dos seus apelos para além dos necessários espaços para se moverem. Attenzione: vocês despejarão 30.000 quilos de merda  e mijarão 100.000  litros de urina por dia nas nossas cloacas estreitas! Attenzione: entupirão nossos ouvidos e cérebros com centenas de culturas e sotaques a cada instante, e seremos obrigados a acolhê-los todos! Daremos  a mesma informação milhões de vezes e em todas elas deveremos sorrir! Attenzione! Hoje, graças a vocês, será mais um dia em que coisas banais como ir para o trabalho e comprar verdura na feira serão tarefas quase impossíveis. Attenzione! Quase sempre reclamarão do preço, mas voltarão, e trarão milhares.  Pantanoso mar de turistas. O valor de compra  do dinheiro versus o valor da invasão controversa.

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