Se você se interessar porisso, poderá encontrar na internet o brasão de sua família; se for descendente de italiano, certamente o encontrará. A existência dos brasões e a extensão de sua popularidade não poderia estar melhor do que nessa terra, hoje, é claro, muito mais como curiosidade histórica, mas reveladora de  poderes e vaidades que parecem eternas.

O brasão, como representação gráfica de um sobrenome, era usado para identificar um grupo que lutava unido  e a riqueza que estavam por trás do sobrenome de seu senhor, e porisso vinha estampado nas roupas e escudos dos cavaleiros. Os brasões da nobreza distinguiam-se por só a eles ser permitido usarem determinados símbolos e estavam sempre mais ou menos ligados à maior pujança de poderes e consequente presença de um braço mais  forte e numeroso, para proteger ou conquistar.

Se olhássemos para os últimos mil e quinhentos anos da história da Italia essas figuras poderiam ser contadas aos milhares e seus palácios e obras de arte, grande parte desaparecida, às centenas de milhares. Os mais pujantes, certamente, foram os Medici de Florença, os Habsburgo de Milano, os Savoia de Genova e Torino, os Doge de Veneza, o Ducato Papal de Urbino.

Os palazzos na Italia (nome genérico para edifício) trazem com frequência, no centro do batente superior da porta principal, o stemma (brasão) dos seus proprietários. Tem até em construções bem pequenas para os padrões, mas o que se vê é que quanto mais grosso (grande) o palácio mais frequente a presença dessas distinções. E se ele for ligado a história  de uma das linhagens citadas, certamente será um grosso museu onde você pagará ingresso e verá arquitetura e arte das mais importantes do mundo.

No Vale d’Aosta visitamos o castelo que Emauelle II de Savoia transformou na sua residência de caça (Castelo de Sarre). É claro que os brasões estão em todos os salões. Mas ali o que chama a atenção é a decoração das imensas paredes com um estilo de mandalas  simétricas feitas de chifres de animais alpinos, desde as galhadas de alces até os de tamanhos diversos, cabritos monteses a cerdos  e veados. Em alguns casos estão isolados em troféus bestiais com registro do nome do caçador. A coisa é grotesca do início ao fim. E o pior é que parece ter sido feita sem a menor capacidade de análise, consciência ou vergonha na cara. Mas, em algum momento, não sei se por auto-crítica ou porque não  tinha mais dinheiro para manter tal capricho, um dos descendentes dos reis doou para o estado as imensas reservas de terras para caça contíguas ao castelo, e elas foram  transformadas em área para devolver à natureza animais ameaçados de extinção. A última moradora foi uma velhinha dos tempos em que a Italia unificada há muito já não era monarquia da família Savoia. Durante uns anos morou sozinha no castelo,  depois entregou-o à propriedade pública e desapareceu.

Algumas vezes vi na tv italiana um homem jovem e bonito descendente dos Savoia dando entrevistas. O tema é um jazigo-memorial da família para o qual foi transferido recentemente o Rei Vitorio Emanuelle III, padrinho de Mussolini, para juntar aos demais o membro da família que estava faltando, talvez para que esperem unidos  pelo improvável dia em que retornarão aos tempos dos stemmas.

Aqui em Jesi, fomos convidados para uma visita especial que acontece aos domingos à tarde uma vez por mes. Coisa importante. Na porta de entrada do palazzo a visitar está o stemma da família do Conde Colluci, que se não era Duque de primeira grandeza, foi um dos inumeráveis exemplos desses personagens secundários muito importantes para as histórias locais. Em algum momento do passado alguém da família casou com um parente dos Vespuci de Firenze. Tempos depois, por obra de documentada reivindicação, as autoridades oficializaram o parentesco da família com o famoso navegador Americo Vespuci (que apesar de alguma controvérsia era mesmo italiano), honra maior da herança dos Colluci. O Palácio (coisa de quatro andares e talvez uns cinco mil metros quadrados) está caindo aos pedaços e só uma parte menor é aberta para as visitas especiais. No final do século passado, a última resistente da nobreza dos Colluci, entregou-o à Comune (que nunca teve dinheiro para restaurá-lo) sob algumas condições: que não se permitisse a dispersão de seu mobiliário, obras de arte e demais objetos, que tudo fosse sempre mantido na exata posição em que a família deixara para preservar a sua memória viva; e que se garantisse uma quantia para a sobrevivência dela e de seu único filho até o fim da vida. Assim foi feito, e quando se visita o palácio que definha o guia pede que se permaneça longe da área central das dependência por motivo de segurança (o assoalho pode ruir); na sala de jantar sob a mesa se vê um patético potinho com reminiscências  de uma porção de azeite de oliva; o tal filho, cuja morte precedeu a da mãe, ponto final na família, nunca casou, era muito feio (herança de doença genética) e socialmente arredio (segundo gente que o conheceu pessoalmente).

Do meu ponto de vista, o que costuma acontecer é a extinção do dinheiro, depois da nobreza e por último da família. O que se vê são famílias que saíram da nobreza mas nunca deixaram que a nobreza saisse delas, tudo acompanhado de patéticos esforço e resistência para manter o cadinho das nobres vaidades. E a Italia como um todo parece também desenvolver, em grande escala, esforço semelhante de manutenção e recuperação do passado e suas ilusões. E a impressão que se tem é que isso, por um lado o tesouro da bellezza italiana, por outro, pode representar uma ameaça ao seu futuro: carga pesada demais.

Vaidade, tudo é vaidade. Inclusive a minha de tentar escrever coisas engraçadinhas e  para isso ficar ironizando personagens históricos de cujas jornadas pouco sei.

 

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2 Comentários

  1. “Vaidade, tudo é vaidade. Inclusive a minha de tentar escrever coisas engraçadinhas e para isso ficar ironizando personagens históricos de cujas jornadas pouco sei.”
    Primo amigo, fique à vontade para ironizar a nossa outra pátria. É muito legal ter as tuas histórias pra ler e rir (as que são para rir…)
    Quando vcs voltarem, com certeza vai haver ironias da nossa pátria daqui…