Ao fazer um passeio de barco pelo maravilhoso Tirreno da Sardegna, o condutor recomendou que providenciássemos um farnel com bebidas, frutas e os indefectíveis paninisanduíches em inúmeras versões, presentes em toda Itália. Os  marinheiros destes passeios sempre são sócios de alguma padaria na vizinhança, para onde encaminham seus passageirosm para as compras. Entramos no lugar, como todos os do gênero com balcões estupendos, salumeria variadíssima, com crudos, cotos e fumicattos, picantes ou não, queijos de todos os tipos, frescos ou curtidos, de cabra, búfala, ovelha e vaca, em peças redondas, talhos irregulares, trançadas, de todos os tamanhos, algumas gigantescas (assim mesmo, os italianos fazem de conta que não é com eles quando um francês diz que na França existem mais de quinhentas variedades de queijos; ciúmes, porque aqui, talvez, sejam só quatrocentas). De algum modo, ao mirarmos essas vitrines, nossos olhos sempre acabam pousando em outras, com azeites, vinhos e pães, de todos os tipos e todas as tradições. E tudo se completa.

A Norma, uma das  poucas italianas gordas que encontrei por aqui, atendia atrás do balcão, no que parecia ser uma missão impossível dada a quantidade de Nonnas e Nonnos no recinto, a fazerem toda espécie de pedidos acompanhados sempre dos mesmos deliciosos diálogos que desde sempre se repetem: “A mussarela é fresca?” “Certamente. Chegou pela manhã.” “E esse presunto é sardo ou veio da Liguria?” “Absolutamente. Aqui só se vende sardo legítimo.” “E você não vai sair de férias, Norma?” “Ma che! Você é que vai pagar as minhas contas?” “Tres cornetos para mim, Norma.” “De crema, marmelata ou chiocolatta?” E o cliente, pensativo como se diante de uma difícil decisão: “De crema.” Detalhe: na Itália inteira nunca vi outros sabores mas, no entanto, quem pede nunca vai logo dizendo  o sabor que deseja, e quem vende sempre apresenta, com ares de novidade, as mesmas invaríáveis opções. Tudo se passa sempre com um gesto a mais, com uma palavra a mais, com uma tirada a mais. “Oh Norma! Já te falei que na  Ligúria são tão pão-duros que a fatia de presunto tem que ser transparente de tão fina?” E um ligure presente: “Mas não é verdade, é que na Liguria sabemos comer, e presunto fininho é muito mais gostoso, desde que não seja da Sardegna.” Parece uma opereta com espaço para todos os tipos de atores. Puro Felini.

E de movimento em movimento chegou logo a nossa vez de ser atendidos. Em seis pessoas, pedimos doze panini. Norma abriu doze pães sobre o balcão, sacou de um enorme prosciutto sardo crudo e se pôs a fatiá-lo finamente numa máquina que o fazia à perfeição, depositando com uma pinça larga seis fatias em cada pão. Em seguida, pegou um queijo pecorino e em cada panino meteu duas fatias. Feito isso, na medida em que fechava os sanduíches arrumava-os jeitosamente num saco de papel impermeável. Em dois minutos estava tudo pronto. Já havia outros dez italianos para atender, e a opereta avançara outros movimentos. Nas minhas contas, a Norma poderia montar 2.160 panini num dia, com, em média, um movimento de opereta para cada um deles.

 

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