Bordado N'Água

1. Core etuba e o rock impossível

Parti cedinho da casa de arandu porã amundaba com destino à vilinha, lugar onde a cidade grande tentou começar e onde mora arandu porã taba. Caminho pela extensão da estrada da floresta da chuva que corre do lado leste da rodovia em direção à capital. Lembro que a estrada de ferro que sucedeu a de terra, hoje o asfalto que percorro, ao nascer chamava-se enseada do grande rio à muito pinhão, pois a cidade litorânea era mais antiga e importante comercialmente em razão do porto. Depois, core etuba cresceu e ficou mais importante e a estrada de ferro passou a ser conhecida como muito pinhão à enseada do grande rio. Singelo fato, de passar sem importância? Ou seriam os fortes contando a história e batizando suas sendas e rebentos desde a vista do seu ponto? Mas bem, sigo pela estrada caminhando pelas extensas várzeas do rio palmital e cruzando o rio muito pinhão (ou como querem outros, rio da cabeça erguida), mesmo nome do lugar de primeiro destino de viajantes que vinham ao planalto já no século 17. Em 1.649, o senhor de paranaguá, capitão das canoas de guerra da costa do sul, convenceu uns aventureiros que viviam na vila litorânea, a subir a pé e enfrentar os perigos da serra rumo ao planalto. Essas bandeiras exploradoras subiam pelo caminho aberto no passado pelos índios em busca de ouro e de índios outros para escravizar. Aos poucos, muitos portugueses foram ficando pela região e formando arraiais que, em alguns casos, se firmaram como a origem das cidades da futura região metropolitana, ao sobreviverem à exaustão do garimpo de ouro de aluvião. Os primeiros colonizadores se fixaram às margens do rio muito pinhão, no lugar que hoje abriga o parque histórico da vilinha. Mas ali, não foram bem sucedidos na procura do ouro e, diz a lenda, que ao buscar novo lugar guiaram-se pela fé, seguindo a orientação de uma santa que toda manhã era encontrada com a cabeça erguida olhando numa precisa direção. Reza-se que, nesta empreitada, a tal santa precisou da ajuda do cacique local tindiquera, pois ainda que seu altivo olhar indicasse aos colonizadores a direção, não definia o lugar. O grande cacique da tribo tingui, caminhou então na direção apontada e chegando ao local que deveria ser depositou no chão a vara que trazia na mão dizendo: core etuba! Precisamente o lugar do marco zero, no centro histórico da terra de muito pinhão, a capital do estado. Hoje, uma estátua de corpo inteiro do cacique tindiquera está no alto de um obelisco num pequeno largo nas proximidades da vilinha. A praça se chama ivo rodrigues, que foi o roqueiro de core etuba e um dia cantou: “amigo irmão, o verde nasce da terra / a luz do sol desce a serra / num desenho magistral / olhai os campos que cercam o horizonte / eis o berço fulgurante do pai celestial”. Não se tratava por certo de blindar o hino ufanista composto no passado, com seu verso utópico que canta o torrão subtraído aos tinguis - a capital do rio semelhante ao mar - como “imagem de um paraíso na terra”, mesmo porque o rock sempre pretendeu conduzir seus acordes de protesto mais pelo rio do infortúnio e menos por mares angelicais. Lara, tindiquera, mussurunga e ivo, poderiam ter sido a nossa improvável formação inicial? Do nosso improvável rock eldorado de inspiração portuguesa à brasileira perdido no paraná?

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