Bordado N'Água

4. Clichê moderno

January 21, 2019

Uma amiga do meu amigo pés na terra disse que hoje cedo ao sair de casa, após uma noite mal dormida, encontrou o portão da rua aberto. E chutou aquela merda enquanto pensava quem teria sido o irresponsável, nestes dias de roubalheira, nessa cidade de ladrões. Não pode se livrar da ideia de que fazem de propósito, de que não dão a mínima para as coisas simples que pede, de que não tem nem ideia do que ela passa todo dia nessa vida. Disse que no caminho para o ônibus caiu numa crise de choro. Um choro doído, com muita pena dela mesma, que  nunca sabe de onde vêm. Por que esse sofrimento, esse vazio, essa vida que perde todo o sentido? Para que serve tudo isso? Esse meu trabalho, esse meu marido, esses amigos e, Deus me perdoe, até os filhos? E essa vontade de morrer, de acabar com tudo, esse cansaço da vida que lhe desespera? Disse que teve que parar de chorar porque passavam pessoas e ela costuma ter vergonha na cara. Que tinha vontade de voltar para casa e se enfiar na cama com um calmante. Mas não pode  faltar ao trabalho. Precisa do dinheiro. Precisa da aposentadoria. Me disse que se sente muito cansada. Que já levanta cansada. E que o sexo com o Jeremias, que já não era grande coisa,  piorou muito. Confessou-me que não aguenta mais nada. E não sabe o que deu errado.  Disse que estão ganhando mais dinheiro a cada ano, mas que cada vez precisam de mais e mais. Sempre apoiou  o Jeremias nas ampliações da casa, nas trocas de carro, na compra de tudo quanto é novidade. E procurou  não se importar com as saídas dele com os amigos quase todo dia. Disse que pode gastar tudo que ganha com esteticista, roupas, tudo o que quer para a casa; e com as crianças, que cada vez mais querem roupas de marca, celular novo, festinhas e viagens. Confessa que sempre sentiu certo orgulho da  inveja que os vizinhos e parentes tem da condição de vida da sua família: filhos que vão prestar vestibular em breve, férias na praia, aniversários. Mas falou que da porta pra dentro as coisas não dão tão certo. Que não se lembra da última vez que fez sexo sem o cheiro de álcool do Jeremias. Que não existe mais nem a escassa ternura de antes, e cumpre com isso porque nem sempre pode evitar. Não há conversa. Ou é alguma queixa, bronca, discussão, ou é todo mundo no celular. Ela também, que tem a sensação de estar esperando que venha pela internet uma notícia maravilhosa que nunca vem. Disse que ela não era assim, uma ansiosa, engolindo  tudo que chega. Achei-a perplexa por perceber que o  Jeremias só fala em sucesso. E diz que quer ser grande,  cada vez maior. Mas ela não sabe o que ele entende por isso. E só fala na merda do dinheiro. Sempre aflito para sair com os amigos. Às vezes, ela acha que ele demonstra não ser um bom homem, firme das ideias, com caráter.  Disse que parece que ele não acredita em nada direito.  Muda de opinião a toda hora. Tudo que faz é para levar alguma vantagem, para ter alguma fama e para ganhar dinheiro. Até um irmão ele sacaneou por dinheiro, mas ai dela se quiser falar que ele fez alguma coisa duvidosa.  Ele vira bicho. Ela disse que tem medo, mas acha que ele é um homem sem moral. E incapaz de ficar uma hora quieto ou conversando com os filhos. Acha que ele nunca leu um livro. Quando ficou doente, quase morreu de medo e foi  em tudo que é milagreiro, que nem um tonto perdido. E nem era nada. Imagine este homem enfrentando um sofrimento como o meu, disse ela. Ele desiste na primeira. Mas, chorando outra vez, disse que, no fundo,  é igual ou pior que o Jeremias, porque sente essas coisas e não é capaz de fazer nada. Não sabe se acredita em alguma coisa, se tem alguma verdade que defende. Chora quando se lembra das vezes que permitiu que seus filhos falassem absurdos e ficou quieta; fizessem absurdos e ficou quieta. Ela tinha que ter corrigido. Se acha uma pessoa fraca, sem consistência, que fica mudando de opinião e de rumo e se ocupa o tempo todo com festinhas, jantarzinhos inteligentes, televisão, internet, compras. E que já não tem a menor ideia do que é pão-pão ou queijo-queijo. E que, mesmo que não percebam, está sofrendo e nem sabe porquê.

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