Bordado N'Água

5. O chacoalhar da cabeleira da araucária

January 22, 2019

Mas meus pensamentos mudam quando vislumbro a silhueta da minha  Árvore Majestosa. Os ancestrais da araucaria angustifolia, admirável criatura, remontam a mais de 200 milhões de anos. Apesar de tão antigas, as gigantes do sul do brasil não são completamente conhecidas pela ciência, esta sabe-tudo onipotente que, bebê de um instante em fraldas de quinhentos anos, diz  que tudo sabe. Mas fraldas precisam ser trocadas com frequência. A  nobre araucária, talvez desapareça antes que sejam conhecidas sua grande sensibilidade e sofisticada  especialização, em ambiente rapidamente invadido e destruído. Elas só podem tornar-se adultas mediante cuidados e pedem décadas para seu desenvolvimento, porisso, não são escolhidas para plantio. Algumas leis que proíbem seu abate foram transformadas em sentença de morte para as pequenas que nascem no campo, ceifadas num verdadeiro infanticídio antes que seu tamanho seja capaz de testemunhar sua existência. Mas ela é muito mais do que símbolo de estado, nome de capital e brasão de cidades. Em nosso território o homem convive com as araucárias há pelo menos dez mil anos, porque só então houve homens. Mas elas só provocaram a pujança  do desejo aos olhos do português que as reconheceu como imenso estoque de madeira para utilidade e rendimento (e depois ensinou para ingleses, italianos, alemães, homens que miravam uma araucária e a transformavam, instantaneamente, em dúzias de tábuas na cabeça). Foram  então oficialmente promovidas ao que de fato já eram, árvores de madeira de lei, que só podiam ser cortadas em proveito da coroa. A partir de 1.900  sua exploração tomou força. Sobre sua força, beleza e paixão, me contou um dia um amigo da cidade: Numa tarde nublada de domingo, na casa de um destes amigos que morrem cedo demais nos deixando, havia uma lata das que eram usadas como antigas embalagens para óleo comestível. Estava embaixo da pingadeira do beiral do telhado de um anexo da casa onde viviam muitos passarinhos de espécies diversas. Dentro da lata brotavam, por força do tempo e da água gotejante, talvez uma centena de pinhões ali deixados. Esparramei esses pinhões na calçada e escolhi o mais robusto deles, muito simétrico em suas formas, com um saudável broto bem verde. Plantei-o distante donde ele havia nascido, no quintal da minha casa.  Esse bichinho, em velocidade inusual, tornou-se uma majestosa araucária adolescente que balança sua cabeleira crespa abundante com qualquer vento que passe por lá. Costumo apresentá-la para todos que me visitam e, secretamente, considero tê-la plantado como uma das melhores coisas que fiz na vida. Os ancestrais da araucaria angustifolia, essa admirável criatura, remontam a mais de 200 milhões de anos,  e no quintal do meu amigo cresce mais uma no mesmo formato e com a mesma misteriosa beleza. Mas o que significa para um mundo que não soube e não sabe resolver os constantes genocídios que abriga, de pedras, árvores e pessoas, o chacoalhar da imensa cabeleira de uma araucária? E o que poderia saber do chacoalhar constante das ideias que criam sucessos e fracassos, esses dois impostores?

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