Bordado N'Água

8. Atiremos a primeira pedra

January 24, 2019

No mundo das sabedorias sempre poderíamos nos surpreender com os poucos que prestassem atenção ao chacoalhar das cabeleiras dos pinheiros do paraná e podessem, inclusive, tentar poesia: “araucárias cujos ramos enfileirando-se em planos diferentes, sobretudo por causa da inclinação do terreno, formam degraus de imensa escada”. Em maio de 1880 o imperador visitou a mais nova província do império. Ficou impressionado com as belezas que o caminho apresentava, sobretudo as valiosas araucárias. Antes de chegar ao seu destino a comitiva parou para descansar sob a cabeleira de uma delas (contam alguns que em função das prementes necessidades fisiológicas reais), depois abatida por um raio. Coisa estranha, não? Mas contam que esse tal pedro II era diferente um pouco, vá lá. O homem gostava de poesia e de ciência. Falava e escrevia línguas, inclusive o tupi. Para por fim à escravidão apostou sua condição de imperador ameaçando abdicar se não se avançasse para o fim da excrescência. Pelo mundo, muitos reconheceram o império de pedro como personificador de ideais liberais: liberdade de imprensa e respeito constitucional a liberdades civis. Nalguma medida, o povo o reconhecia como  "governante sábio, benevolente, austero e honesto." Mas o pedroca (e atiremos a primeira pedra) não era só pedro II, que quase todo tempo governava com virtude, mas também o pedro de alcântara mulherengo, que achava um saco o cargo de imperador e sentia-se bem melhor com as mulheres ou nos domínios da ciência e da literatura (cada coisa a seu tempo). No limite, deveríamos sempre lembrar de nelson, rodrigues como o ivo, e a seu modo também roqueiro, que já alertava: “Se as pessoas se conhecessem na intimidade, ninguém se cumprimentaria na rua.” Se for assim, penso que é um mundo cheio de pedrocas e um rock cheio de revelações.

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