Bordado N'Água

10. Pica-paus e maragatos

January 25, 2019

 Nas proximidades do pinheiro de pedro II cruzo com um andarilho. Ele se espanta um pouco, mas após o bom dia e a troca das palavras sobre o tempo me pergunta para onde vou. Respondo. Ele me olha como para alguém que não tem muito juízo, mas seu olhar é compreensivo. Faço a  mesma pergunta. Responde que vai descer até o quilômetro sessenta e cinco para visitar a cruz que marca o lugar onde foi assassinado o barão do serro azul e seus companheiros de desgraça. Conheço essa história, digo. É de estranhar, responde, porque quase ninguém conhece; a verdadeira história então, nem pensar. Vou lhe contar, se tiver interesse,  mas para mim ela começa sempre pelo fim, e o fim é uma pergunta: porque neste mundão de deus é difícil de não ser nem maragato, nem pica-pau? Procurei um posto e me sentei para prestar atenção. “No início da república nada ia bem. As condições não eram boas, principalmente para quem vivia no campo. Revoltosos lá do rio grande do sul resolveram levantar a bandeira do que para eles era a verdadeira república e avançaram para o norte com a intenção de derrubar o marechal floriano peixoto. Esses eram os maragatos. Na medida que marchavam iam recebendo apoio dos locais revoltados e a coisa foi ficando feia. O governo resistia com as tropas oficiais. Esses eram os pica-paus. No paraná, os maragatos resolveram entrar por paranaguá, campo do tenente e lapa. Vislumbrando a invasão da capital, o presidente do estado pediu licença para tratamento de saúde e picou a mula. O vice assumiu e transferiu a capital para sua cidade natal no interior. A grande aldeia ficou à mercê dos vencedores. Na lapa, havia resistência e o pau comia solto. Os revoltosos, aos poucos, já chegavam à curitiba , para tratar os feridos e buscar suprimentos. A cidade sem governo, a  ameaça de saques ao comércio e à integridade das famílias que tinham ficado na capital levaram um sujeito rico de nome barão do serro azul a organizar uma junta de governo. A tal junta, barão à frente, achou que era possível evitar mais destruição e  derramamento de sangue: bastavam os mortos da lapa. E aí chamaram o chefe dos maragatos , um tal gumercindo saraiva, para negociar. Ofereceram dinheiro ao homem em troca da paz. Mas os maragatos perderam para os pica-paus na lapa, e partiram em retirada. Quem entrou em curitiba foram os pica-paus de floriano peixoto. E esses acharam que a junta, barão à frente, deveria ser julgada por traição, porque tinha ajudado os revoltosos. Para serem julgados seriam mandados ao rio de janeiro. Foram embarcados num trem para paranaguá, o barão e mais cinco. Quando chegaram num lugar sem testemunhas, quilômetro sessenta e cinco,  fizeram parar o trem, puseram o barão de joelhos com um tiro na perna e, depois, fuzilaram ele e os mais cinco  e jogaram os corpos na floresta. Amigos desceram ao local e com medo dos pica-paus que andavam por perto esconderam os corpos para enterrá-los quando desse. No mausoléu do barão, na capital,  ninguém sabe se é ele mesmo que está enterrado. E a história, que virou tabu, fala pelo silêncio do povo até hoje desconfiado.” Agradeci o seu relato, ele a minha atenção, e seguimos nossos caminhos.

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