Bordado N'Água

9. Poderia dizer sim, não ou talvez, não direi nenhum dos três

January 24, 2019

Mas valeu a pena? Perguntou aristóteles. E emendou disse que para valer a pena terámos que ter sido felizes, e que para sermos felizes teríamos   que ter identificado a nossa natureza e trabalhado para seu pleno desabrochar; porque esse mundo seria uma máquina finita e ordenada e nele cada um teria uma função a cumprir; e a suprema ética seria realizar a natureza em plenitude e excelência; e que tal realização aconteceria no relacionamento com os outros. Mas os dons seriam desigualmente distribuídos e, por isso, uns seriam melhores que outros, e não haveria nada de errado nisso; mais talentos melhor desempenho da função cósmica; e isso poderia  justificar até a escravidão, e seria  bom que você fosse  meu escravo porque assim eu poderia cuidar de você que é quase um incapaz. Depois veio jesus e disse que seria como na história de um homem que ao partir para longe chamou seus servos e entregou-lhes seus bens, em porções desiguais; e deu a um cinco talentos, a outro dois e a um terceiro um, conforme suas capacidades; e o primeiro negociou e fez dos cinco dez, e o segundo negociou e fez dos dois quatro, e o terceiro enterrou o talento recebido para ter a certeza de que poderia devolvê-lo; e que retornando o senhor, elogiou e recompensou o que havia multiplicado cinco em dez porque dobrara o que era muito e aquele de dois em quatro porque o que era menos também dobrara; e  tirou do mau servo o talento único que lhe confiara mandando que lançassem ele nas trevas onde haveria choro e ranger de dentes, pois o que não cuida do pouco até o pouco lhe será tirado. Porque o valor de cada qual não estaria no que recebeu da natureza, e sim no destino que daria ao que recebeu no exercício do livre-arbítrio.  E quinze séculos depois teríamos chegado à modernidade iluminista, primórdios da revolução científica; e ficaríamos sabendo que o universo seria infinito, e não poderia ser concebido como uma máquina finita,  e se não há máquina não há peças de máquina, e não há agir mecânico; então, quem decidiria como agir seríamos nós, promovendo coletivamente princípios de nossa ação; e a responsabilidade teria explodido, pois não estaria resolvido, nós é que teríamos que resolver; e assim, impregnados de humanismo, teríamos chegado até aqui; ou maquiavélicos, embebidos da ética de resultados por quaisquer meios; ou kantianos, preferindo afirmar que o valor de uma ação está na própria e não em seu resultado, que só existe resultado bom com ação boa, e por elas as pessoas deveriam ser julgadas; ou mais ou menos encaixados em sabe-se lá qual pensamento mais para cá ou para lá. Mas, provavelmente, nem sequer sobre a transitoriedade da ética, ou sobre a perenidade dos princípios morais, ou sobre o respeito adquirido pela conduta concernente ao discurso, concordaríamos. Você concorda? Pois é, “tudo que existe vem impregnado de seu contrário” (e eu já estou com o saco cheio de repetir tal constatação).

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