Bordado N'Água

12. Exterminadores do passado. E o futuro?

February 1, 2019

Sigo pelo planalto da capital pensando no homo neanderthalensis e todas as demais espécies do gênero homo banidas da face da terra pelo  sapiens, ou seja, nós, quando nos espalhamos da áfrica para a eurásia; nos aborígenes australianos dizimados e nas dezenas de espécimes animais extintas quando nos deslocamos da indonésia para a austrália; na megafauna da nova zelândia exterminada quando fomos capazes de navegar até lá; nos mamutes siberianos massacrados quando avançamos da eurásia para o ártico; nos tigres dentes de sabre, preguiças gigantes, leões americanos, imensos roedores, presentes do norte ao sul das américas, mortos depois que nós a alcançamos pelo alasca vindos da sibéria.  Nós produzimos um dos maiores e mais rápidos desastres ecológicos da história do mundo, tudo em poucos milhares de anos na esteira de nossa primeira onda de espalhamento. Nós extinguimos todas as espécies humanas, com exceção de nós mesmos - por enquanto? - e a metade dos animais do planeta quando ainda nem conhecíamos a roda. Nós que sabemos tanto. Seria este o projeto? A roleta russa onde fomos e estamos  sorteados para arrebentar? Sim, porque as destruições do tempo da pedra foram apenas o começo. Seguiu-se o momento, como disse o sábio, em que “o trigo nos domesticou”. Passamos a viver com o trigo e por ele, trabalhando dia e noite, corpo e mente nas ocupações e preocupações do cultivo de plantas e na guarda de seus grãos e frutos, numa abundância que em alguns momentos transbordava e, noutros,  virava escassez a dar asas ao anjo da fome e da morte. Dizem os historiadores que o sofrimento individual aumentou..., mas aumentaram também as possibilidades do crescei-vos e multiplicai-vos: vivendo pior, mas muito mais gente. E sem chances de voltar atrás, porque nenhum desses muitos a mais e suas proles  cogitariam deixar de ser para reequilibrar a equação de existência dos antanhos, os tempos da coleta e caça. Fomos mais prósperos do que nunca, a partir de decisões que se estabeleceram ao longo de poucos milênios e de forma irremediável,   um sistema que nos levou a romper com a relação simbiótica com a natureza e nos fez prósperos como nunca, gananciosos como nunca, alienados do natural como nunca.  Fomos domesticados pelas plantas mas - glória! -, domesticamos os animais. Vacas, porcos, ovelhas e galinhas: fizemos por eles o que o trigo fez por nós: garantimos o sucesso da transmissão de gigantescas quantidades de cópias de seus deneás,  ao tempo em que os transformamos nos animais mais brutalizados da história, submetidos a práticas sempre e sempre mais cruéis. Pergunte a um porco italiano o que ele acha de viver a vida toda imobilizado em uma prisão de algumas centenas de centímetros comendo como um porco pelo pouco tempo de vida que terá até ser morto; pergunte a qualquer porco europeu.

 

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