Bordado N'Água

13. O nosso legado

February 2, 2019

Mas trigos e porcos produzem excedentes, cobiçados, que  precisam ser defendidos ou roubados, por grupos que em aglomerações chamadas cidades se tornaram muito maiores que os pequenos bandos nômades de caçadores coletores; multidões que assimilaram como método da resolução de seus conflitos os confrontos sangrentos para os quais souberam tecer grandes redes de cooperação (impérios, igrejas, corporações, castas), embora até hoje o façam pifiamente quando se trata da promoção da dignidade de qualquer coisa que exista. O método criou hierarquias que se prolongam indefinidamente na história, entre invasores e invadidos, livres e escravos, ricos e pobres, brancos e índios e negros, homens e mulheres. Fomos nós. Nós e nossos códigos e éticas e apesar deles, a serviço de nossas motivações e justificativas: politeísmo, monoteísmo, romantismo, nacionalismo, capitalismo, consumismo, socialismo, humanismo, individualismo... visões que se sucederam império a império, sempre erguidos com rios de sangue e da mesma forma destruídos pelos nossos pares bem representados em figuras descomunais como Assubanipal, do Império Assírio; Nabucodonosor, da Babilônia; Ciro, do Império Persa;  Lêonidas, de Esparta;  Alexandre, da Macedônia;  Anibal, da República Cartaginesa; Júlio César, do Império Romano; Qin Shi Huangdi, do Império Qin; Átila, o Huno; Khalid ibn al-Walid, do Império Árabe Muçulmano; Gengis Khan, do Império Mongol; Saladino, do Império Otomano; Napoleão, do Império Francês; Leopoldo II, da Bélgica; Ataturk, da Turquia; Pol-Pot, do Camboja;  Hitler, da Alemanha;  Stalin, da Rússia; Mao Tse Tung, da China;  Truman, dos Estados Unidos; Yahya Khan, do Paquistão; todos responsáveis por grandes massacres e genocídios na história do mundo, embora estejam bem acompanhados por milhares de outros de menor fama e igual insânia e, talvez principalmente, pela nossa insidiosa ação cotidiana, para além dos grandes psicopatas, para além de uma região ou de um tempo determinado. Nós deixamos um legado de destruição a qualquer tempo e em todos os lugares por onde andamos, de tal sorte que, no último instante das eras geológicas, o escasso tempo em que a  humanidade está no mundo, quando os homens se juntaram em grupelhos e grupões, e acamparam, e construíram cidades,  e se multiplicaram, os índices de extinção fizeram o mesmo, crescendo pelo menos uma centena de vezes além do que eram há  dez mil anos. Se a população de  humanos duplicar no século XXI quanto tempo levaremos para auto extinguir-nos? Ou não?

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