Bordado N'Água

15. Sobre urgências e repetições

February 4, 2019

Embora pareça mudança de assunto, na última centena de metros comecei a pensar que já faz um tempo que não faço  ideia de porque lembro tanto do que estou lembrando agora aqui neste Caminho que não mudou, e nunca muda. O fato é que sonhei que estava num prédio, que parecia um hospital, procurando um lugar para evacuar com urgência. Achei um banheirinho escondido no fundo de uma sala. Entrei, e no cantinho havia alguém dormindo sentado no chão sobre cobertores e travesseiros numa poltrona improvisada. Não quero que esta pessoa acorde e me veja evacuando. O vaso está solto do chão, preciso me equilibrar. Está cheio, quase transborda. Não tem água para limpar nada.  Fico meio em pé para que suas misturas não me toquem. Alguém ameaça entrar mexendo na maçaneta. Ponho a perna e prendo a porta com a ponta do pé, piorando a precária posição. Puta que o pariu! Destravo a língua e sussurro que está ocupado, mas com todo capricho para não acordar minha inconveniente companhia; sinto mais do que nunca o desconforto de evacuar sob o risco de ser flagrado. O sujeito que queria entrar, desistindo, se afasta sem cuidado e a porta fica aberta. Pela fresta vejo que do outro lado da sala que atravessei para chegar a este vaso - que não toco para que não vire seu conteúdo no chão -, janela a janela, há pessoas, homens e mulheres, trabalhando num escritório. Preocupo-me muito com a possibilidade de que tenham me visto.  Termino a minha obra. Percebo que minhas calças estão borradas e tento limpá-las com chumaços de papel higiênico que espalham tudo, e desisto. Visto-me, cubro tudo com um casacão comprido, que como por milagre tenho em mãos, e vou embora preocupado com a ideia de que alguém sinta o cheiro. Na saída, visão encoberta pela gola do casacão, chuto as pernas do ser que dorme e então percebo que preocupei-me em vão, ele está morto. Na mesma noite, porque o inconsciente deve ser novelista, sonhei que estava num lugar com muitos banheiros com necessidade urgente de repetir (a urgência e a repetição das sujidades são  para mim detalhes instigantes nesses sonhos sujos seriados). Entro num que tem excretas transparentes espalhadas pelo chão. Procuro um segundo, que tem fezes vermelhas espalhadas pelo chão. Chego num terceiro que tem merda azul aguada. Pego um rodo e afasto a sujeira como posso. Tenho urgência. Lembro-me de já ter estado ali, mas parece que não tinha tanta sujeira, e não sei o que tenho a ver com ela. Mundo, mundo, vasto mundo! E meu nome nem para rima serviria.

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