Bordado N'Água

16. Não parece

February 8, 2019

A propósito desses estranhos sonhos, me lembrei de uma história daqui da capital (não parece, mas a capital foi palco de muito episódio que merece ser contado), apropriada para um dia como hoje, em que estou triste, aborrecido com reações que tive, arrependido de coisas que disse, intrigado com sonhos sujos que sonhei, mas querendo confrontar o tema com humor, única qualidade que nós temos em comum com os deuses. Bem, eram tempos que de barões o mundo estava cheio, fosse por título herdado ou merecidamente conquistado. Esse era o caso de um que prestava digno serviço aos moradores da capital muito pinhão quando ela era uma cidade malcheirosa por conta das excretas canalizadas para fossas sem preparo por suas gentes sem esgoto. O homem começou como o castelhano, e desenvolveu um carroção com tração animal (dois simpáticos burricos gêmeos),  sobre ele fixou uma grande barrica à qual interligou robusta mangueira e entre barrica e mangueira conectou uma bomba de sucção que funcionava com tração humana. Era o negócio que tinha inventado. Assim, sempre que uma das tais fossas transbordavam, o que era bem frequente e produzia um fedor incompatível com a sobrevivência de seres sencientes, o homem era chamado para sugá-la, num trabalho repugnante e nobre. E os fregueses, que pela frente o chamavam de seu castelhano, pelas costas a ele se referiam como chico bosta, e o urgente brado “chama o chico bosta!” foi se tornando mais e mais frequente. O chico já não dava conta dos pedidos todos. Trabalhava até que a luz do sol permitia para evitar fazer merda quando já não enxergasse. Acelerava o bombeamento quanto podia, mas ao final de meia dúzia de barricadas, já não tinha força nos braços. Diante de tanto sucesso e necessidade aperfeiçoou o seu modo de produção: contratou ajudantes; descarregava barricas vazias e funcionários em várias beiras de fossas e passava mais tarde recolhendo-as já com o produto da sucção; quase matou os gêmeos de tanto trabalhar. Diante da prosperidade decidiu reforçar através da imagem a dignidade que seu negócio já tinha. Comprou um fraque preto completo, uma camisa de musseline branca com babados e lenços de seda coloridos que usava a modo de corbatas. Para seus ajudantes trajes pretos também, mas reduzidos a colete apenas e camisa de algodão sem babados. Imediatamente, quando ao fim do dia se encaminhavam ao rio para derramar o que tinham sugado, o chico conduzindo o carroção e os ajudantes em pé sobre ele segurando as barricas, apesar do cansaço chapado na desanimada cara dos gêmeos, faziam uma bela figura, e sua promoção à nobreza foi coisa natural. Por qualquer lugar que passassem, todos comentavam: “Lá  vai o barão da bosta e seus bosteiros". Alfa, bravo, charlie e delta!

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