Bordado N'Água

17. Ô formigões vermelhos sô!

February 15, 2019

Mas retornam as minhas reflexões mais limpas. Dia desses um vizinho me lembrou das formigas-da-madeira, um bicho grande para formiga, avermelhado, meio mole e bundudo, que a gente encontrava - e tinha nojo -, debaixo daquelas tábuas podres há muito largadas em quintais e porões úmidos. Tudo bem, eu também não gostava desses bichos. Mas e daí? Daí que o vizinho, para meu estranhamento, comparou essas nojentonas aos jovens de hoje: “Essa piazada de hoje parece aquelas formigas vermelhas moles de bunda grande que a gente achava quando levantava tábuas meio podres na infância e dava nojo”. Achei a comparação original e despropositada, pensei um pouco e esqueci o assunto. Mas ele retorna agora e me pergunto o que o vizinho quis dizer com tal metáfora dissonante. Será que se referia a uma sensação que às vezes temos de que tantos jovens de hoje não tem disposição para a dureza, não valorizam e sequer acreditam no esforço continuado como fonte de desenvolvimento pessoal e de alguma realização? Ou estaria pensando em certa ideia que o mundo dos adultos ensinou a eles a respeito de não terem poder nenhum, de serem pobres diabos de quem se usurpou as perspectivas e que, portanto, tem sim todo o direito de sentar-se no meio do caminho e esperar? Talvez pensasse nos milhões que nesses países pobres podres periféricos entram em péssimas escolas onde não aprendem nada a não ser que os únicos responsáveis pelos  seus fracassos são os professores incompetentes (porque ganham mal, dizem eles), a cidade hostil,  os valores baixos das bolsas educação, os pais do mundo das trevas que não participam de sua formação? Ou naqueles do outro extremo que moram em apartamentos comprados especialmente para que estudem em universidades públicas pagas pelos mais pobres, e andam só de automóvel, e enchem o saco dos vizinhos com suas festinhas constantes, não sabem nem fritar um ovo, e tem no motoboy entregador das pizzas de todos os dias o seu maior contato com a realidade? Todos esses e aqueles, que formados dão sequência aos negócios da família ou aos empreendimentos novos, nem sempre com competência maior do que a dos avós, mas com olímpico desprezo por qualquer responsabilidade com o mundo dos fracos que nem mesmo sabem que existe? Ou neles todos que nunca leem nada, muito menos um livro, e jamais concordariam com a ideia de que pensar possa ser um prazer? Prazer, isso sim, de sexos e de drogas, de consumismo e de ócio pago por outros,  amores e valores exclusivos de tantos na vida? Estaria pensando em todos esses “pobres coitados” cujas consequências de seu passado, ou circunstâncias psicológicas, ou condições econômicas, ou tudo isso junto, como gosta de propagar o pensamento intelectualizado hegemônico desonesto, seriam as causas mais do que suficientes para negar sua humanidade e transformá-los em formigas vermelhas moles de bunda grande, incapazes do exercício de qualquer controle sobre suas vidas? De alguma responsabilidade sobre suas adicções? Sobre fazer da grotesca mostra de suas nádegas defecantes instrumento de protesto contra tudo que aí está? Sobre não ter a vergonha na cara de deixar em pé na longa viagem de metrô uma velha que trabalhou o dia inteiro? Sobre esnobar o trabalho na padaria do tio num mundo sem emprego enquanto sonha com modelos de moda, jogadores de futebol, youtubers influenciadores? Sobre ser formiga vermelha mole bunduda, quando um padrinho se compromete em pagar seus estudos e ele despreza a oportunidade? Sobre justificar sua criminalidade frequente como seu único caminho enquanto a sociedade não mudar para alinhar-se às suas fantasias frustradas que serão sempre apenas discriminações e injustiças? Bem, deixa pra lá. Não se trata de querer que alguém faça isso ou aquilo. Que cada um faça o que quiser. Mas haveria vida digna quando se abre mão do poder da condição humana que permitiria que assumíssemos responsabilidades diante do que se faz? A contrapartida da liberdade total de ação seria a insegurança completa da irresponsabilidade plena? A  segurança da responsabilidade completa seria a contrapartida da falta total de liberdade? Dura a vida dos jovens neste mundo tão cruel. Mas ser formiga vermelha mole e bunduda...?

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