Bordado N'Água

18.Pobre juventude

February 22, 2019

Pobre juventude. Pobre juventude pobre e pobre juventude rica,  essencialmente tão parecidas num mundo que relativizou, superficializou, liberalizou, individualizou, desmaternalizou, institucionalizou, e moeu tudo no liquidificador mundial das fantásticas redes sociais brutalizadoras com suas mentiras sobre amores virtuais; e, mesmo assim, com certeza, um mundo quem sabe melhor ou, talvez, pior que antes, até que não se comprove qualquer coisa, como se quer ou não. Pobre juventude, seja lá onde esteja golpeada pela inserção  em mais uma das sociedades que se perderam na desigualdade, pois são todas desiguais; aquinhoada com a garantia do mau preparo para uma  vida voltada exclusivamente ao desejo,  que lhe sorri cinicamente, plantada num futuro opaco para o qual não há roteiro de viagem. Um futuro em que, sim, estaremos todos mortos, mas que seria para tantos  a única esperança com a qual poderiam contar para deixar este presente que já é uma quase morte. Juventude das ilusões roubadas como sempre a vida fez, mas, talvez, nunca como agora, a enfrentar com tatuagens, curtidas, posts e indiferenças tóxicas, tal dureza inevitável. Juventude preparada na família do desejo, na escola do desejo, na sociedade do desejo, na dimensão única da posse e do consumo como solução para as feridas existenciais, tanto faz se arranhões ou fraturas expostas; a colher o sofrimento dos desejos não realizados do pobre jovem pobre, e da angústia pelos desejos excluídos do pobre jovem rico  quando opta por A tendo que deixar de lado B, C ou D, quando não alfabetos inteiros. Juventude que indaga ao mundo (i)maduro de seus pais por onde ir e ouve que deve ir para onde a satisfação do desejo lhe levar; e questiona suas escolas publicas muquiranas de periferia ou vencedoras de mercado sobre a saída para suas vidas  angustiadas e ouve o mantra do sucesso que a levaria à atenção de todo desejo; e volta seu olhar ansioso para padres e monges na esperança de mestres e encontra frágeis seres humanos trêmulos de desejo, com frequência abusadores. Não estaríamos sendo desonestos com a juventude e seu sofrimento dando-lhe a entender que o problema é a sua falta de aplicação ao aprendizado das maravilhas que lhe propomos? Que nós, os vividos, adultos e velhos, conhecemos as sete chaves dos sete cadeados e temos feito todo o esforço possível para transmitir esses segredos aos que começam a percorrer os caminhos de nossa vida bem resolvida? Ou quem sabe esse mundo de certezas que temos a ensinar seja apenas uma palafita que construímos sobre os próprios sofrimentos para não enfiar os pés no esgoto? Sei lá. Mas ouso sonhar com a ideia, que me parece boa, de que um dia, adultos não transpassassem  jovens transparentes com olhares obrigatórios apressados e não descartassem velhos por desejo de solução ao que não pode ser solucionado; velhos não esquecessem de afagar todas as tribos, solidários às suas atuais e vindouras desilusões, e pudessem divertir crianças e testemunhar dignidade na hora da partida; jovens fossem fiéis ao desejo e à contrapartida em sofrimento, equilíbrio dialético da existência,  e soubessem conviver com o tédio e ensinar  tudo isso às crianças e adultos; crianças sempre recebessem o retorno de um olhar, a atenção às suas palavras e a cumplicidade de todos para sua proteção  e gradativo contato com a realidade que deveria ser feita de prazeres sem negativas aos imanentes sofrimentos.

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