Bordado N'Água

19. Parcialidade moral

February 22, 2019

Talvez se eu fosse como um amigo meu italiano, teria mais equilíbrio, seria menos parcial, não me pensaria um Deus e nem sumiria na minha insignificância. Esse meu amigo percorre caminhos, caminhos de montanha, caçando cogumelos. Até acho estranho que se diga caçar, porque cogumelos não demandam a atitude ativa de perseguir e imobilizar de algum modo -  pela morte quase sempre -  uma vez que podem tão somente ser colhidos do lugar onde estão. Mas concordo com o uso do verbo, porque andar a pé por longas distâncias em terrenos irregulares, só em temporadas propicias, abandonando as trilhas para alcançar quaisquer nichos onde nasçam, e saber distinguir os venenosos dos inofensivos, e acumulá-los em quantidade suficiente para o ragu da pasta  para muitos amigos, seria ou não uma caçada? E lá vai o amigo. E conta que se sente pequenino na montanha, e nem porisso menos poderoso, apesar do seu joelho de setenta anos de trilhas com frequência necessitar de uma injeção de colágeno, como de óleo quarenta necessitam os motores velhos; pequenino porque as paisagens da Itália, tão pequena, parecem não ter fim, mas comparadas às infinitas dimensões do Universo o remetem à sua total insignificância; porque seus olhos, que como todos caminham para a cegueira, são tudo que têm para mirar criaturas em demasia, além de que, quase todas elas, jamais estarão ao alcance deles;  porque mesmo da montanha que sucede no horizonte esta que ele pisa agora, não lhe chegam sons nenhuns, que dirá o imenso e eterno Om!!!; porque se gritar palavras lindamente escolhidas no mais alto volume do seu grito, nem as bactérias de sua garganta se importarão, que dirá, as borboletas, e os passarinhos, e as baleias,  e os marcianos, e os deuses em geral. Mas poderoso, pois não podem ser tantos os que conhecem e amam como ele suas queridas paisagens italianas, que não resolvem nenhum de seus problemas, mas acalmam todos os seus desejos quando lhe abraçam; pois seus olhos sabem que os fungos mais coloridos e belos são mortais, e conhecem o céu que antecede a nevasca,  e enquadram, de longe, toda a Marmolada ou o Monte Bianco e, pelo menos em noites claras, distinguem no céu as galáxias distantes; pois seus ouvidos magnetizados pelo canto dos golfinhos,  escutam o estalar dos gravetos sob seus pés de montanhista, os balbucios de seus netos que ensaiam uma prece, as batidas do coração de sua mulher;  pois suas cordas vocais, com seus limites, são a mais perfeita orquestra de toda a Terra, capazes de gelar e derreter corações, aptas a um pedido de perdão ou a um chacoalhar em uma nação inteira. Eu não sei como esse certo equilíbrio de percepções afeta os sentimentos e as atitudes dos caçadores de cogumelos, não sei se eles são homens melhores, não sei se são mais ou menos fingidores, se sustentam-se em  parcialidade moral mais para cá ou para lá, afinal, ninguém consegue viver com uma imagem asquerosa de si próprio e, assim, ajudado por nossos parciais sentidos, mentimos-nos que sejamos melhores do que talvez de fato somos. E isso inclui qualquer um. Mas meu amigo italiano cacciatore di funghi nunca vi fazer mal a ninguém.

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