Bordado N'Água

20.Linguagem de periferia?

March 1, 2019

Aqui na beira do caminho se encontra um exemplo clássico daquele negócio de a e z. Desvio-me para passar dentro da favela (zumbi dos palmares), agora chamada de comunidade, embora isso talvez não mude quase nada e o submundo subsista, como o faz também na vila rica (alphavile). Percorrendo as vielas escuto fragmentos de conversa. Vamo abatê aquele bosta... apagá o maluco... pensa que vai avacalhá... se metê a besta de atrasá o meu lado... muleque sem noção... fela da puta... vai pará de fudê na marra... se os pm  se meterem vamo ferrá cum esses cana do caraio... enfio o bérro nas venta do primero que embestá... ô mano dá o bagulho ae cara... tu tá cheio de muamba meu... tô sacando... tâmu junto... quero mais é armá treta prarriba dos nego... um esquema pra favorecê parcero... tá sabendo... pode sê um  bacana que nem o tiozão da zona... intupido de papel... tomô no cú o lazarento... nóis não cai no migué desses porra... nóis da vila semo foda piá... oi meu bródi vamos dá um role na... dá um chego no boteco pra tomá umas berra e sacá um pagodão... faiz uma cara que eu não vejo aqueles mano piá... fala firmeza... que pisante é esse virô gay... sai dessa o boióla... nóis tá é pegando uma mina cum puta dum rabão... cocotinha... e fica na tua... o duro é ir pra escola todo dia tê qui trampá no domingo... pegá esse caraio desse busão... e essa porra dessa net que vive caindo... fica sussa mano de boa você é sangue bom vamo dexá quieto na paz... orra piá nóis vai dexá o cara falá assim cum nóis... o negócio é batê um rango qui eu to cuma baita duma larica... é nóis na fita tá ligado... tipo firmeza mano... piá to mó cansadão... Sim, eu fui informado que a linguagem da favela é mais e diferente disso, e a luta de classes etc e tal, e a transgressão, e um lugar no mundo; mas, no caso, minha compreensão foi treinada para não compreender. Será que perco muito dessas falas que se revoltam, contestam, afrontam e servem para guardar segredos, distantes dos dialetos cultos,  sempre próximas das contradições das sagas humanas das bactérias das periferias das placas de agar sangue? Roendo a mensagem  movente e provisória, às vezes certeira quando logra demarcar o iceberg cuja ponta à luz do sol se deita sobre o indizível que espreita  vivo e não comunicado,  mas que a nada afronta nem sente vergonha como sente a falante ponta,  simplesmente é o que pode ser? Atributo humano fruto da linguagem para significados, para a tragédia e para a comédia, mesmo que possa existir uma fronteira, um limiar, uma zona de “cinquenta tons de cinza” que não pode ser ultrapassada, pois daria em labirintos sobre os quais já não haveria mais nada a dizer?  E seria lindo, resistente, impertinente, ou só inculto, grosseiro, preguiçoso, indolente? E eu,  que também dos escribas do egito antigo, assurbanipal, homero, shakespeare, virgílio, dante, cervantes, camões, rumi, anônimos de as mil e uma noites, goethe, proust, machado, clarice, pouco ou nada  sei... da novilíngua da favela, não sei nada de nada. Que se foda então talvez. Mas sempre sem esquecer menezes, perneta, trevisan, leminski, snege, karam, tezza, sanchez neto, valeixo, kolody, colin... Preciso acreditar que talvez eles pudessem funcionar  como ginástica para formigões vermelhos moles de bunda grande.

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