Bordado N'Água

21. Observatórios do fim do mundo

March 8, 2019

Mas aí, para que eu nunca deixe de desconfiar que essas minhas digressões paridas no passo a passo do meu Caminho não tem lá muita importância, as lembranças das tragédias me assaltam. Então vejamos. Tratava-se de uma vida em ordem. Pelo menos não era comum encontrar alguém que incluísse entre suas preocupações conjeturas sobre outra possível ordem para a vida. E então lhes aconteceu - como muitas vezes nesse mundo - a desestabilização, o desastre, a catástrofe.  Tal qual o livro sagrado registrara, “o anjo derramou a sua taça sobre o sol, e foi-lhe dado abrasar os homens com fogo”. Mas aqui, onde auroras boreais só chegam em vídeos? O fato é que o céu da madrugada  encheu-se de matizes de arco íris; luzidias, intensas, gigantescas, volumosas, se espalharam pelo firmamento continental em balé frenético, precipitadas de  encontro ao planeta para logo retornarem às alturas por ação de uma cama elástica invisível  de um parque sideral de diversões. E tudo passou a mover-se com lentidão, quadro a quadro,  em câmara lenta. E tal efeito estroboscópico do luzeiro cósmico, foi depois relacionado a sinais divinos das trevas e da paralisia que se sucederam ao portentoso espetáculo.  O primeiro sinal de que alguma coisa estava errada foi percebido como multidões de vermezinhos incandescentes alucinados pulando como minhocas pelo chão e logo saltando para as  fiações onipresentes no mundo dos s homens. Simultaneamente, esses fios condutores  passaram a soltar faíscas que distribuíram choques elétricos nos operadores de redes de toda espécie e em milhões de pessoas conectadas na  rede folha de rosto - que ainda existia -, incendiando papéis e roupas a seu alcance. Era o sol tempestuoso que arremessava bilhões de toneladas de prótons e elétrons a se abaterem contra o campo magnético da terra produzindo o inigualável espetáculo, e também a invasão de energias solares insuportáveis aos circuitos do planetinha. Correndo pelas fiações, saltando de antena a antena, de satélite a satélite, de multimídia a multimídia,  o excesso foi apagando aplicativos digitais, desligando disjuntores e chaves de segurança, queimando aparelhos e computadores, superaquecendo e explodindo subestações de energia, desligando as  telecomunicações. Em minutos, as trevas negras se alastraram pelo continente, como tinham há pouco se alastrado as incríveis luzes  lilases, amarelas, azuis e vermelhas, incandescentes. A escuridão tomou conta do campo e da cidade, dados e vozes travaram, presos  em todas  as telas e gargantas digitais do mundo. Sob luz de velas alguém escreveu uma resposta que ninguém leria: “Explosões na superfície do sol  precipitaram sobre a magnetosfera da terra  monstruosa massa de gás ionizado a altíssimas  temperaturas. Ao atingir nosso campo magnético este vento solar causou uma tempestade geomagnética, detonando sistemas elétricos e de comunicações. Não há como estimar as dimensões, a  gravidade e as consequências da catástrofe.”  Os primeiros gritos de dor foram dados por centenas de milhares de operadores queimados pelo maçarico onipresente ensandecido que a um só tempo agiu nas unidades de terapia intensiva, nos sistemas de registro da ciranda cirandinha financeira mundial, nas salas de controle e operação de ferrovias, aeroportos,  ruas e estradas,  nos sistemas nacionais de distribuição de energia, call centers e teleoperadoras, linhas industriais de processamento e montagem, centrais meteorológicas e de alerta a  catástrofes, inclusive a que estava acontecendo e não teriam nenhuma condição de alertar. Mergulhadas na escuridão e desorientadas pelo colapso de seus sistemas de navegação aeronaves vagaram sem rumo até a pane seca fatal, embarcações arremeteram sobre rochas e corais, veículos de todo porte,  desatinados como cabras-cegas, chocaram-se em acidentes mortais. Nas utis os respiradores se desligaram suspendendo o suporte à vida, e só se livraram do desespero os que por estarem em coma não souberam que iriam morrer naquele instante. Nos aviões, navios e trens, pessoas afogadas, sufocadas, chegavam ao fim tomadas pelo pânico, querendo sair de onde não sabiam que estavam, ir a lugares que não sabiam onde ficavam, se livrar daquela coisa que ignoravam, querendo um abraço da morte que, rejeitando em desespero, a bem dizer desejavam. Passados o grandioso espetáculo no céu e a dança mortífera das minhoquinhas tecnologicidas, os cadáveres nos necrotérios começaram a cheirar mal, alimentos apodreceram nos depósitos e sobre as esteiras desligadas das linhas de produção, animais e plantas em viveiros e estufas e pessoas nas ruas e casas ferveram ou congelaram sem resistir, remédios, vacinas e  sangue - que não medicariam mesmo mais ninguém - estragaram-se irremediavelmente. As pessoas tentavam voltar para casa tateando a escuridão, devolver para alguém as crianças perdidas, encontrar  socorros mais urgentes, aquecer os corpos, resfriar os corpos, buscar a água ausente das milhões de triviais torneiras agora secas, fugir ao afogamento das represas desrepresadas. Os telefones, tablets, note books, personal computers, televisores, rádios; os dados, informações, notícias, instruções, explicações, cantadas, consolos, discussões: desligados, desorientados, paralisados, silenciados, apavorados, sedentos, esfaimados, enlouquecidos... Ali estava erguida mais uma das incontáveis necrópoles da história, como sempre inesperada, absurda e presumivelmente injusta. Ali, daquele observatório do fim, eloquente contribuição para a expectativa da morte e do nada como destino dos homens,  emanavam miasmas densos de descrença e cinismo.  Comamos, bebamos, copulemos, defequemos e durmamos, pois não há  essência, espírito ou alma que não sucumbam  a tão frequentes pantanais medonhos, embora para alguns, o principal trabalho dos homens na vida, seja o de, simplesmente, conservar a dignidade nos constantes extremos. O escuro me toma do sonho, acordo no absoluto breu. No terror dessa escuridão desconheço, não controlo, desoriento-me, me apavoro. Aonde o norte, aonde o prumo, aonde ir? Como saio, como sigo, onde estou? Mas eu sou também o Grande Escuro. Fecho os olhos e escureço a escuridão. Entrego-me para ver se amanheço. No breu que eu faço, o recomeço?

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