Bordado N'Água

26. O rajá do Rajastão

March 15, 2019

Após um lanche leve e algumas orações, taba me confessa andar desalentado. Para ele o mundo parece já não ter muito tempo para tomar algumas decisões cruciais, mas segue cavalgando a besta escarlate resplandescente da insensatez. Dito isso, taba lê para mim: “A poção de cúrcuma, gengibre e limão, era conduzida pelas mãos do serviçal do rajá de jaipur a cidade rosa, no rajastão. Seguia num cálice de cristal ornado com esmeraldas e rubis em cuja borda um friso de ouro áspero indicava o lugar onde aquele que se presumia o   maior de todos os reis deveria apensar os opulentos carnudos lábios e sorver o lenitivo para a profunda incurável sombria tristeza que de há muito se aboletara em seu cangote como quem não fosse sair tão cedo. O cálice seguia sobre uma pesada bandeja de jade nos braços estendidos de um especial  criado e nitidamente lhe  exigia esforço suficiente para transmutar-lhe o semblante em demonstração de sofrimento numa aparente extensão solidária misericordiosa   devotada à compaixão para com a abissal melancolia de seu senhor ao tempo em pela silenciosa faina mitocondrial denotava acúmulo de ácido lático em seus extenuados músculos. Sobre o cálice um envoltório de seda que de tão leve se esvaecia e só não decolava como um panapaná porque os fios de ouro que lhe ornavam com delicado bordado nas bordas conferiam-lhe substância gravitacional.  Além da pesada placa de jade nos braços o homem portava sobre as escápulas uma espécie de capa branca antisséptica inconsútil com longa cauda em cuja borda inferior em toda sua extensão penduravam-se pingentes de pedrarias preciosas a pesar a túnica sobre o pavimento de mármore de carrara fazendo-a inexpugnável para insetos e pequenos animais como ratos. No corredor comprido vinham outros serviçais lado a lado, a formar um séquito secundário cínico. Tudo ecoava pompa desútil e falsa , mas de nenhum fausto se poderia sentir falta. Lá fora, muito perto dali, amontoados de seres humanos caquéticos de pouca idade ou muito velhos  limpavam panelas enfregando-as com areia colhida às margens de valetas e poças a céu aberto cheias de um líquido preto fedido, redução de mistura de urina e fezes ao sol escaldante dos dias úmidos pós-monções. E os ratos que não lograriam transpor as bordas da túnica do criado cínico do rajá por ali transitavam nojentos repugnando. E o cortejo deteve-se à porta de uma das trezentas  suítes do palácio enfeitadas de ouro jade e marfim – todas sempre recendendo a precioso olíbano - de trezentos metros quadrados na qual só adentravam vossa soledade e seu serviçal cínico farsante. E o cara, que da janela estava a mirar as cavalariças impecáveis onde eram tratados seus trezentos puros-sangues por trezentos servidores que todos juntos valiam menos que cada um dos cavalos, vestido de preto num fraque transluzente  trespassado por uma faixa cravejada de pedrarias a ostentar uma gravata borboleta esculpida em ônix e um turbante amarelo ouro sobre o qual estava depositada uma espécie de broche gigante de pérolas, desviou a cabeça em direção ao cálice  e abriu a boca autômato. E antes que suas pálpebras se fechassem, enquanto sorvia o placebo, tudo que se viu foram olhos mortiços cheios da opacidade de um tristíssimo auto-engano. Mas outro olhar poderia ter sido?”  Pela milésima vez pensando sobre isso vamos dormir.

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