Bordado N'Água

22. Muitas bocas, poucos ouvidos moucos

March 22, 2019

Era uma vez os que formavam opinião. E eram poucos, e dispunham de fatos verdadeiros para multiplicar como verdadeiros fatos ou para esparramar distorcidos conforme suas intenções nem sempre isentas, ou melhor, talvez, quase sempre parciais, por pequenos interesses de paróquia ou de grandes planos mundiais. Mas houve um tempo em que qualquer um tinha opinião que pensava  que era sua, e multiplicava e espalhava por pequenos interesses de suas crenças ou frustrações, pensando  estar engajado em grandes planos de redenção, sua carcaça à frente. Antes uns poucos mandavam e conduziam o rebanho pelos currais da pecuária mundializada. E então todos tinham algum poder para fazer manobrinhas cibernéticas, que pensavam que eram ideias suas  e lhes levavam a crer que andavam devagar porque já tinham tido pressa, tocando uma boiada imaginária de um solitário boi que era cada um deles, pertencentes à manada da solidão em rede, imaginária “comum unidade”,  que ia em frente tangida para... Se você é dos que não consegue ou não  está disposto ou não acredita que é necessário desisvestir da pressa, parar, olhar, escutar,  refrear desejos para não sofrer, canalizar suas energias para além dos currais pós-modernos, está vagando pelo céu, e ipiaiô para você. Mas sorria, talvez agora você não seja apenas fodido pelos formadores mundiais de opinião, mas possa se reconhecer como um dos que ajudam a foder com a opinião mundial. E se entender que sempre haverá espaço para condutores de boiadas, faça como os grandes boiadeiros, invente uma narrativa fantasiosa com enredos de missões a cumprir e heróis improváveis, liquidifique sua história na mais simplista das linguagens para que qualquer um possa repeti-la, e queira repeti-la porque mexe com sua fé, raiva, medo e insegurança, frustrações e invejas. Mergulhe tudo nas redes “sociais” garantidoras da conectividade, instantaneidade, velocidade e inimputabilidade e poderá ser completamente irresponsável com a verdade, mas boiadeiro finalmente, aquele que conduziria sem ser conduzido. E o besourinho que zumbe no centro do osso frontal do meu crânio, nosso já conhecido, poderá estar alargando suas funções para estar registrando textos que estivermos lendo, verbalizando ou pensando. Em real time poderá estar transmitindo via satélite e integradamente para mailings e redes sociais, não sem antes, se estiver sendo o caso, integrar imagens e palavras, às quais poderá estar acrescentando conteúdos correlatos que estará captando na clound. Por fim, estará fazendo a edição final e encaminhando para o tipo de mídia que estará sendo mais adequada para o tipo de material que estará sendo editado. Imediatamente, as peças (d)informatórias estarão sendo multiplicadas por robôs que estarão infectando pessoas de verdade que estarão se engajando na arte de multiplicá-las convictos de que são ideias originais suas:  Non ducor, duco. Hehe.

 

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