Bordado N'Água

23. Sedentos

March 29, 2019

Com sede, entro num bar na beira do Caminho. Muitos estão chegando a ele ao mesmo tempo. E vão entrando. Na rua está quente demais. No bar, paira o clima agradável do grupo que vai refrescar o corpo e comer comida de boteco; e que aqueceria a alma com amores e  imaginaria coisas com gente amiga. À porta de entrada, todos ao mesmo tempo, formam um turbilhão que lembra vagamente os movimentos de um cardume, com os mais velhos avançando, os mais novos se reposicionando e cedendo a precedência pela ordem de idade, as crianças passando por baixo dos braços e se esfregando nas pernas de todos. O anfitrião, velho,  está à espera dos convidados há algum tempo. Mas, naturalmente, retarda uns instantes os cumprimentos, aos abraços e beijos, para olhar ainda uma vez para o celular. Dá alguns toques na tela. Luzinhas  se acendem. Leituras parciais instantâneas assimilam códigos  com uma rápida passagem de olhos. A mão abaixa e aproxima da coxa a caixinha retangular que some da vista voltando ao seu perene sobreaviso acionável a qualquer momento sempre pronta para alertar sobre as coisas novas importantes que sem cessar estariam acontecendo. Todos fazem a mesma coisa sem a menor percepção da interlocução do velho com sua caixinha como se fosse um desnecessário comando-controle qualquer. O mais velho depois do velho acerca-se do balcão e enquanto senta e lança uma olhadela para o chope recém tirado clica sua janela para o mundo. As mocinhas e mocinhos com mais agilidade e com sincronismo produzem uma coreografia de paisagem que já não chama a atenção de mais ninguém fazendo comentários e gracejos para os do lado na medida em que manejam aquelas luzentes  extensões, parte integrante de suas neomãos. O único diferente é tiago de sete anos que ao levar uma bundada da tia velha que olhava para o celular dela derrubou o seu no chão e, por hora, está naufragado. Num átimo estão todos mais comunicados, mais informados, mais instruídos, cada vez mais curiosos, mais sem imaginação e todos, sem exceção, à espera daquela notícia que, finalmente, resolverá os seus problemas, quando serão felizes finalmente, talvez para sempre. E seguem tomando lugar nas mesas e acendendo luzinhas nos celulares e perguntando do time preferido e acendendo luzinhas nos celulares e pondo comida na boca e luzindo os celulares e de minuto em minuto lendo as telinhas e digitando devoluções apressadas na perene teia mundial, de modo que tudo que acontece não lhes escapa à curiosidade e são  mais completos de esperança pela mensagem que vai chegar daqui a pouco e que será para sempre; indiferentes com esses ao lado cujo calor corpóreo chega a incomodar de tão quente. Enquanto estive ali perdi a conta do número de vezes que consultei meu smartfone e do número de vezes que fui vazio. E a comunidade real ali reunida é sem graça demais para chamar a atenção para si. Todos estão ocupados em “participar” da comunidade imaginária de que imaginam participar. Gente que diz coisas parecidas às que eles dizem, são companheiros de fé, medos, ódios e invejas: e que tem cada vez menos a dizer com palavras articuladas por suas gargantas, para os ouvidos de martelo, estribo e bigorna de seu pai,  sua mãe, irmãos, tios, avós, vizinhos, professores, sempre mais desbigornados.

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