Bordado N'Água

25. De aventuras e descobertas

April 12, 2019

Já é noite adiantada quando envolto em minhas recordações chego à casa de arandu porã taba.  É um pequeno sobrado de alvenaria, mobiliado com simplicidade, de onde se avista o rio e a construção que faz parte de monumento para o Parque da Vilinha. Ele me afaga demoradamente num abraço. Sinto sua longa barba no meu rosto, aperto seu tronco magro e lenhoso. É ele quem fala primeiro, no ritmo desapressado dos que permanecem presentes onde estão, e no tom manso dos que a mais nada necessitam enfatizar; me acolhe, me dá as boas vindas e por longos segundos deposita nos meus os seus olhos profundos. “Seja bem vindo amável guataha!” Sentamo-nos na varanda. Eu no lugar indicado por ele, de onde é inevitável observar, ao lado direito da entrada da cabana, um painel de madeira plana entalhada onde se observa na posição do zênite os vultos de um grupo de crianças que caminham na neve todas na direção do ponto central do painel, enquanto vultos adultos mais atrás parecem dar-lhes as costas; o lugar de onde partem se chama abandono, seu destino prudência. Embaixo, à direita do nadir, se vê os vultos de um grupo de adultos que caminham na neve convergindo também para o ponto central; partem do lugar chamado insatisfação em direção  do que se chama contenção. À esquerda do nadir, os vultos de um grupo de velhos; o lugar de onde partiram se chama passado e eles se dirigem para...; parados em meio ao caminho, alguns observam os vultos das crianças, e outros os dos adultos; estão indecisos diante de uma encruzilhada, com um caminho que leva a um lugar chamado segurança, e outro que conduz à liberdade. Não posso deixar de pensar que entre as constantes escolhas que a vida nos impõe, as mais decisivas são sempre as que nos remetem ao nosso âmago. Talvez sejamos todos exploradores, embora muitos jamais partamos para exploração alguma. Enfrentar alguma descoberta, viver de alguma nova maneira...Mas a exploração verdadeira, as descobertas duradouras fazem parte do destino que se chama coração, e não podem ser disfarçadas por aventuras exteriores, incapazes de disfarçar as insatisfações interiores. Dia desses um surfista de sucesso que corria o mundo e era exemplo de disposição para o intenso e contínuo desfrute da existência tirou a própria vida. Será disso ao menos em parte  que eu estaria falando?

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