Bordado N'Água

27. Yvy Marãey, tempo de fazer o que dissemos que faríamos (1)

Tivemos um dia agradável, na rotina de reflexões, com a comida simples, nutritiva e saborosa, com o trabalho. À noite, arandu porã taba me pede que leia para ele a carta de Yvy Maraey.


...do que os governos deveriam fazer e não fazem, prover e não proveem, vai além do que dissemina o senso comum a respeito do que seria sua única e onipotente causa, a corrupção? Será talvez porque este veneno, cujos antígenos são pretensamente conhecidos, se pareça com um dragão que pode ser morto, e participar de tal safári possa ser o bálsamo para a impotência generalizada face à tensão entre o que podemos e o que desejaríamos poder? A posição mais realista nos diz que, não se trata tão somente de matar dragões. A propósito da complexidade de se fazer o mínimo que deveria ser feito, Nullius Derelictae, administrador de reconhecida influência, publicou em “Meta Sem Método” (ano 500, vol. 10, nº 1.000), plagiando marqueteiros, artigo intitulado “É a Gestão Idiota” ou “É, a Gestão Idiota” ou “É a Gestão, Idiota” onde diz: “Tome-se o objetivo de vender 100 livros e a descoberta de que para isso seja necessário que 1.000 pessoas visitem a livraria e que, para tal, 10.000 devam ser convidadas. Tendo em mente este exemplo singelo, multiplique-se por 20 o objetivo mais geral para chegar ao que comumente é o conjunto de programas de um governo, por pelo menos 80 o intermediário para chegar ao número de projetos de um governo e por 400 o mais simples deles para chegar aos produtos dos respectivos projetos. Considere-se que esses 400 produtos dariam ensejo a mais ou menos 1.600 marcos principais para o acompanhamento de sua execução. Que, metaforicamente, os olhos d´água devem jorrar formando riachos, que devem confluir para formar rios caudalosos antes de desaguarem nos oceanos. Que, para isso, terão que conectar-se uns aos outro sempre a jusante, sem soluções de continuidade, e que o que devem recolher para formar oceanos de água, é somente água, e não outros líquidos quaisquer. Imagine-se que cada um desses itens, com tais exigências de qualidade, deverá ter um responsável, com prazos determinados a serem cumpridos. Que, para honrar com suas responsabilidades, cada um dependerá de entregas que estarão sob a responsabilidade de outros e deverá fazer a eles entregas que lhes permitam cumprir com suas responsabilidades. Que, esta cascata de negociações e pactuações, não se esgotará intra corporis no Estado local, por exemplo, mas se estenderá, no sentido vertical, para outros níveis de governo e, no horizontal, para um grande número de empresas, organizações do terceiro setor e órgãos de controle, atingindo toda a cadeia de valor da produção de bens e serviços públicos. Que essas relações e conversações demandarão uma infindável gama de atos de fala, a serem comunicados adequadamente aos diretamente envolvidos e a terceiros, e a serem registrados passo a passo. Que esse complexo negocial resultará numa pletora de licenças, contratos e controles, em conformidade ao imenso cipoal de leis do Brasil. Que tudo deverá ser monitorado, avaliado e corrigido, pelo menos anualmente. Que o universo das informações deverá estar disponível e transparente para todos os segmentos da sociedade, para os meios de comunicação e para os órgãos de controle. Que tudo isso envolve um grande número de pessoas no exercício de funções distintas a partir de suas prerrogativas e poderes técnicos, administrativos e políticos e que não se pode esquecer que cada uma das pessoas envolvidas é única, etc etc.” Quando se vê estas dificuldades tão grandes para fazer triunfar a virtude da res publica aliarem-se à incompetência existencial comum naqueles que, por isso mesmo, - pela ilusão de que se tornarão poderosos, de que serão grandes, de que suplantarão seus limites existenciais-, cumprem seu destino de políticos, o que se tem é o saque cruel da esperança de um povo, o surrupiamento da dignidade de existir que se estenderá por muitas gerações, a confirmação de que tais estúpidas atitudes só podem representar o sucesso da determinação inconsciente de destruírem-se em todos os sentidos, sem sequer compreender o que fizeram. Competência, por favor! Liderança, coordenação.Alivia as incertezas, lambe a sofrida nação.


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