Bordado N'Água

28. Yvy Marãey, tempo de fazer o que dissemos que faríamos (2)

April 26, 2019

Um dos nossos gurus, Guataha, sustenta que as organizações de trabalho, públicas principalmente, são regidas por um “triângulo de ferro”. Um de seus vértices  representa a ação dos dirigentes dos negócios, na outra as atitudes e o modo de agir da organização para fazer o que deveria ser feito e, na terceira, o modo pelo qual ela se relaciona com aqueles aos quais deve servir e prestar contas. O tal triângulo emula um poderoso sistema imunológico, sempre pronto a identificar, destruir e eliminar, qualquer coisa nova ou diferente, qualquer confronto à mesmice de atuação dos dirigeentes e do modo de agir no dia a dia. Afinal, como já constatava o longínquo Maquiavel: “Nada é mais difícil de realizar, mais perigoso de conduzir, ou mais incerto quanto ao êxito, do que uma nova ordem das coisas, pois a inovação tem como inimigos todos os que prosperam sob as condições antigas e, como tímidos aliados, os que podem se dar bem nas novas condições”. Esse DNA anti-inovação caracteriza-se por um dia a dia de agenda mal focada em face da multiplicidade de problemas que competem pelo tempo escasso dos dirigentes de um grande negócio. Nessa agenda sem foco predominam as questões de menor importância, secundárias, embora ruidosas: urticárias passageiras que coçam e produzem vermelhidão, enquanto as silenciosas “crises hipertensivas”, capazes de, insidiosamente, causarem  danos irreparáveis ao “sistema cardiocirculatório”, passam despercebidas. Caracteriza-se também pela cega obediência à rotina, numa operação sem espaço para a criatividade e novas iniciativas. Sucumbe ainda às tramas interesseiras ilegais sem transparência, aos pequenos expedientes levados a cabo por grandes filhos da puta. E, finalmente, e mais importante, pela ausência de um sistema de efetiva prestação de contas, não obstante, como ouvi outro dia nas palavras de um cidadão, “tenhamos em Yvy Marãey sete para controlar o que apenas um tem a fazer”. Somos, em geral, surrealistas: há o controle do controle do controle, e juntos   pouco controlam e sobre quase nada prestam contas. A ciclosporina desse sistema imunológico, o imunossupressor que o fragilizaria, seria o adequado funcionamento da prestação de contas públicas. A prestação de contas - em cujas linhas e relatórios não seja possível se esconder - escancara os diferentes desempenhos a respeito de compromissos declarados e formalizados em planos e  quebra o triângulo de ferro, porque eleva o nível de responsabilidade  dos governantes em toda a linha hierárquica. Apostamos nisso Guataha. Todo  compromisso deve ter validação pública, com exame minucioso e rigoroso das causas de seu não cumprimento e correspondente responsabilização, pessoal e institucional, dos que tem sob seu controle as variáveis determinantes dos resultados. A má notícia, Guataha, é que os formadores daquela opinião que contribuiria para a elevação dos níveis de prestação de contas, tratam o dirigente que empreende esforços nessa direção como um farsante a priori, e não tem disposição para o debate que vá além de matérias superficiais e preconceituosas a respeito: a princípio todos estariam simplesmente mentindo como sempre teriam feito, e não mereceriam atenção.  Prestação de contas é muito mais do que obrigação legal de fornecimento de informações e nada tem a ver com propaganda. Prestação de contas com correção de rumos é fonte privilegiada de aquisição e manutenção de capital político. Quase como acreditar que águas cristalinas pudessem verter de fontes persistentemente despoluidas, sobrepondo-se à   espuma preta repugnante que brota da incompetência existencial humana.

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

Copyright © 2019 Carlos Homero Giacomini, All rights reserved.